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Entrevista do mês

Aline Kerber
RS
Socióloga pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Cursando Especialização em Segurança Pública e Cidadania pela UFRGS. Coordenadora de Pesquisas do Observatório de Segurança Pública de Canoas/RS. Linhas de pesquisa: Municipalização da Segurança, Políticas Públicas de Segurança, Violência nas Escolas, Metodologias de Pesquisa.
Você é Coordenadora de Pesquisas do Observatório de Segurança Pública de Canoas/RS. Qual foi a maior dificuldade enfrentada não só para a criação do Observatório, mas também quando passou a ser uma “ferramenta” de credibilidade?
As dificuldades foram inúmeras. Iniciamos sem ter pistas de quais seriam os caminhos metodológicos que deveríamos seguir para darmos conta dos inúmeros projetos (alguns deles inéditos) desenvolvidos pela Secretaria de Segurança Pública e Cidadania de Canoas. Além do mais, não tínhamos e não temos (como gostaríamos) acesso aos dados desagregados, em especial as estatísticas criminais, para que pudéssemos georreferenciá-los e conseguíssemos, por fim, estudar os agenciamentos e as causas das violências perpetradas em Canoas, subsidiando os gestores do Gabinete de Gestão Integrada do Município (GGIM). Mas o que poderia ser um empecilho para o desenvolvimento do trabalho virou criatividade. Criamos o ROVE (Registro Online de Violência nas Escolas), que tem contribuído para a política municipal de prevenção às violências nas escolas e o REG (Registro Eletrônico da Guarda Municipal), potencializando o trabalho de Guarda Comunitária e reforçando a identidade desta Instituição de Segurança Pública junto à comunidade. Além disso, fazemos análises sistemáticas dos atendimentos dos projetos sociais do PRONASCI no Território de Paz Guajuviras e muitas pesquisas de opinião (grupos focais e survey). O resultado desse trabalho desenvolvido junto ao PRONASCI será apresentado na minha monografia na pós-graduação em Segurança Pública e Cidadania pela UFRGS. Uma oportunidade ímpar que tivemos de colocar também as representações sociais dentro a gestão de segurança pública. No âmbito do GGIM desenvolvemos um banco de dados de reivindicações correlatas à segurança pública advindas do sistema de participação popular do município (desde 2009) que tem induzido o planejamento de ações policiais integradas e plantões integrados de fiscalização do município, o que deve interferir diretamente na sensação de segurança e na confiança das Instituições Policiais. Em relação às Tecnologias de Controle Social (em especial, videomonitoramento e audiomonitoramento), há um acompanhamento permanente dos resultados advindos do uso dessas ferramentas - que podem daqui a pouco surgir estudos mais aprofundados dos possíveis impactos das tecnologias para a diminuição das violências e dos crimes. O colega de coordenação Rafael Dal Santo tem se dedicado a esta temática. Por fim, pela necessidade de acompanhamento dos homicídios e dos furtos e roubos de veículos criamos uma sistemática para acessarmos dados desagregados que tem dado resultado. Mensalmente, a Secretaria de Saúde do Município, a Brigada Militar e a Polícia Civil têm enviado os dados de homicídios ocorridos ou atendidos na cidade. É do cruzamento dessas fontes que chegamos a um número que consideramos o mais perto da “realidade”. E sobre os furtos e roubos de veículos as Delegacias de Polícia nos enviam as informações dos BOs em um formulário criado por nós. Estamos de certa forma legitimados pelos gestores e temos contribuído para as discussões acadêmicas, participando de Encontros, de Seminários, de Congressos, de publicações em Revistas e livros.
Sabe-se que você foi uma das autoras do artigo "Observatório de Segurança Pública de Canoas: contribuições à gestão pública municipal da segurança". Qual você considera a maior contribuição do Observatório de Canoas para a segurança pública?
Acredito que tenha sido a criação de um conjunto de informações que acabam induzindo e redirecionando a tomada de decisão dos gestores. E como diria o Secretário de Segurança do Município, Eduardo Pazinato, o Observatório tem contribuído para que a gestão não seja por espasmo, mas sim, planejada e compartilhada. Mas é um longo caminho que está sendo iniciado agora com a elaboração de instrumentos adequados, coleta de informações, análise dos dados e monitoramento permanente. É bem difícil afetar a cultura organizacional das Instituições, mas como estamos sediados dentro da Secretaria somos privilegiados ao acesso dos dados e fomos literalmente incluídos nas decisões – como se fôssemos um deles. Tem o lado positivo e o negativo disso para a pesquisa. O positivo é que temos a possibilidade de contribuir diretamente na gestão da segurança pública municipal, porque produzimos conhecimento e os gestores acompanham e contribuem no processo de construção das informações e, por isso, nos legitimam. O negativo é que talvez não tenhamos o distanciamento e o tempo necessário para produzirmos análises mais reflexivas, o que, muitas vezes, acaba sendo frustrante.
No ano passado, em julho, houve o “Congresso Internacional Crack e outras drogas: um debate que se impõe”. Sabe-se que você participou da oficina "Observatórios de prevenção à violência". Quais são as medidas imediatas que devem ser tomadas para prevenir a violência tão exacerbada nos dias de hoje?
É difícil pensar em fórmulas imediatas que tenham resultados que sejam mantidos. É preciso admitir que esse assunto é uma questão, majoritariamente, de saúde pública, no que toca aos usuários. A rede de proteção e assistência social precisa estar toda interligada e garantir atendimento e internação para os que dela precisam. Do outro lado, as Polícias precisam agir com inteligência para desarticular as quadrilhas e o crime organizado, desconstituindo a economia do crime. Para os jovens, os maiores envolvidos nisso tudo, é fundamental a existência de projetos sociais de segurança pública (em comunidades foco PRONASCI) que os integrem à comunidade e os coloquem possibilidades reais de sonharem (nível simbólico) e de encontrarem oportunidades concretas de geração de trabalho e renda (nível material). Afinal, essa questão das drogas enseja uma disputa para a qual o Estado e a sociedade civil precisam estar preparados para oferecer, de um lado, acesso à rede de proteção social e saúde pública e, de outro, alternativas simbólicas e materiais para as juventudes, reservando ao sistema de segurança pública e justiça criminal as ações de repressão qualificada de casos conexos à prática de homicídios e demais crimes violentos contra a vida.
Você é nova associada do Fórum. O que te levou a associar-se? Onde você acha que o Fórum pode alterar esse quadro buscando amenizar a insegurança?
Eu sou uma nova curiosa e apaixonada pela temática da segurança pública. Acho que o Observatório foi o culpado por essa paixão. Nessas descobertas, percebi que seria fundamental estar interligada numa rede que integrasse as discussões e os profissionais que estão pensando, elaborando e consolidando políticas de segurança pública. Bom, essa rede é o Fórum Brasileiro de Segurança Pública que tem procurado fazer vários diálogos, desnaturalizando preconceitos e desconstruindo idéias do senso comum, o que, de certa forma, contribui na sensação de segurança e favorece práticas de mediação de conflitos.
Antes de se associar e pertencer mais “intimamente” ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública, qual era sua ideia sobre o Fórum?
Como eu estou associada recentemente, mas já tinha conhecimento do trabalho desenvolvido pelo FBSP, não tive nenhuma nova idéia. Estou bem satisfeita por estar recebendo os clippings, por aprender com os profissionais experientes e ter a possibilidade de contribuir, quem sabe, com o meu “novo” olhar no campo.

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