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Entrevista do mês

Carolina Ricardo
SP
Mestre em Direito pela Faculdade de Direito da USP. Advogada e Cientista Social. Coordenadora da área de gestão da segurança pública do Instituto Sou da Paz.
Quais as grandes conquistas do projeto "Juventude e prevenção da Violência entre jovens", feito pelo FBSP em parceria com o Instituto Sou da Paz e o Ilanud? O que você destacaria como inovador no eixo coordenado pelo Sou da Paz?
O projeto “Juventude e Prevenção da Violência entre jovens” contribuiu significativamente para a discussão mais qualificada da interface juventude e violência no país. Em primeiro lugar, teve um papel relevante de discutir essa temática abertamente, sem a preocupação tradicional (e legítima) de criminalização da juventude. O projeto conseguiu mostrar a especificidade da interface violência e juventude, trabalhando fatores de risco e estratégias mais concretas para desenvolver projetos de prevenção da violência juvenil. Além disso, o projeto desenvolveu o Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência, que congrega diferentes indicadores relacionando questões de educação, infraestrutura urbana, entre outros, na análise do nível de vulnerabilidade de jovens a situações de violência. Assim, em minha opinião, o grande mérito do projeto foi produzir conhecimento qualificado sobre tema com base na realização de pesquisas metodologicamente bem estruturadas, que variaram desde a criação de indicadores, até grupos focais, pesquisa de percepção, construção de trajetória de vida, entre outras. O eixo coordenado pelo Sou da Paz realizou 16 seminários para gestores, além de encontros regionais, para promover a discussão sobre a relação juventude e violência com os responsáveis pelo desenvolvimento de políticas públicas voltadas para os jovens. Além disso, produziu cinco cartilhas temáticas, cuja grande inovação foi apresentar caminhos concretos para a elaboração de projetos e programas de prevenção da violência juvenil. São elas: Escolas Seguras, Polícia e Juventude, Cidade e Espaços Públicos, Cultura de Paz e Capacitação de Gestores.
A responsabilidade de todas as autoridades governamentais, e da sociedade civil, na construção de políticas de segurança pública foi destaque na sua palestra, durante o 14º Fórum de Debates Brasilianas.org, realizado em outubro de 2011, em São Paulo. Quais são as maiores responsabilidades desses órgãos para a construção de políticas de segurança pública?
Olha, essa é uma pergunta complicada e extremamente ampla. Falar da responsabilidade de autoridades governamentais e da sociedade civil para a construção de políticas de segurança pública é um mundo sem fim. O ideal seria especificar melhor... De toda forma, refletindo sobre a idéia de uma responsabilidade mais ampla de órgãos governamentais e da sociedade civil na segurança pública, eu diria que o primeiro ponto é tratar do tema com racionalidade e responsabilidade. As discussões sobre segurança pública no nosso país costumam ter início após um fato grave, polêmico, que mobiliza o clamor social ou então entram na agenda pública para fazer barulho em momentos políticos importantes. Essa forma de responder ao problema dificulta que o tema seja tratado de forma planejada e sistêmica e muitas vezes busca apenas dar uma resposta mais imediata à opinião pública. Essa maneira de responder é o que tem predominado em nosso país, com algumas exceções, desde a década de 80, com resultados catastróficos, como as altas taxas de homicídios nas décadas de 80 e 90. É preciso que a segurança pública seja de fato uma prioridade na agenda política, sempre. E não somente depois de crimes graves que chocam a opinião pública ou antes de grandes eventos, como por exemplo, o Pan ou a Copa do Mundo. Sendo prioridade, é preciso que ela seja trabalhada profundamente, tocando em temas complexos, que nem sempre agradam ao senso comum ou aos interesses corporativos. Dentre eles, temos a reforma das polícias, o mandato das guardas municipais, a reforma profunda do sistema prisional, dentre outros.
Você, como coordenadora da área gestão da segurança pública do Instituto Sou da Paz, como visualiza o campo da segurança pública? Onde você acha que o Instituto Sou da Paz contribui para uma melhoria nesse quadro?
O Instituto existe há mais de 10 anos trabalhando concretamente no desenvolvimento de metodologias inovadoras na área da segurança pública. Num campo tão avesso às inovações, ter liberdade e qualidade técnica para criativamente, testar e consolidar metodologias de trabalho nesta área é bastante significativo. É claro que isso só foi possível porque sempre trabalhamos em parceria e aprendendo com diferentes instituições. Já contribuímos para consolidar a política de controle de armas no país; para exercer o controle sobre a atividade policial, de uma forma construtiva; para desenvolver programas de revitalização e ocupação do espaço público; para desenvolver metodologias de elaboração de diagnósticos e planos municipais participativos na área de segurança pública... Acredito que com isso, contribuímos para a segurança pública no país.
Você é associada do Fórum. O que te levou a associar-se? Onde você acha que o Fórum pode alterar esse quadro buscando amenizar a insegurança?
Antes de me associar, eu já participava ativamente das atividades do Fórum. Acredito que o FBSP tem muito a contribuir para amenizar a insegurança pública por meio da articulação forte de uma rede de pesquisadores, gestores e policiais, construindo saber teórico e aplicado na área da segurança pública. Além de ser um espaço inovação na área, tão marcada por visões tradicionais e pouco aberta às mudanças. Decidi me associar, para formalizar minha atuação com o Fórum, que já acontece há bastante tempo.
Antes de se associar e pertencer mais “intimamente” ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública, qual era sua ideia sobre o Fórum?
Acho que minha idéia sobre o FBSP mudou pouco desde que me associei. Como disse, já participava e conhecia profundamente as atividades do FBSP. O que mudou é que me sinto mais legitimada para participar das discussões e para contribuir mais ainda para suas atividades.

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