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Intolerância religiosa deve ser combatida
Herbert Gonçalves Espuny - São Paulo(SP) - 31/12/2008
Intolerância religiosa deve ser combatida


No papel, Declaração Universal garante liberdade de religião e culto. Mas atos de violência impedem aplicação da lei


Darlene Santiago
Da Secretaria de Comunicação da UnB


Historicamente orgulhoso de abrigar uma ampla diversidade de credos e crenças, o Brasil assiste ao aumento de atos de intolerância religiosa, 60 anos depois de a Declaração Universal dos Direitos Humanos garantir a liberdade de culto. Para especialistas da Universidade de Brasília, as agressões têm tomado visibilidade e religiões de matrizes africanas são o maior alvo de perseguição.

A intolerância cresce com o uso de meios de comunicação para fins religiosos. "A TV européia não pode exibir um programa nazista. No Brasil, há programas de rádio, de televisão e jornais com teor agressivo que atacam religiões", diz o professor José Jorge de Carvalho, do Departamento de Antropologia. "Algumas igrejas estão retomando um papel de intolerância e isso é bem mais grave do que as pessoas podem imaginar. É um ataque orquestrado e presente em quase todas as grandes cidades do país."

No Distrito Federal, a intolerância se manifestou na depredação de monumentos da Praça dos Orixás. Conhecida como Prainha, próxima à ponte Costa e Silva, a praça exibia monumentos da umbanda e do candomblé. Desde 2004, sofreu ataques de vandalismo e as peças foram destruídas. Está previsto para os próximos dias a instalação de novos monumentos no local. Para isso, foram investidos R$ 850 mil do Governo Federal, por intermédio do Ministério da Cultura e da Fundação Palmares. Religiosos da Federação Brasiliense e Entorno de Umbanda e Candomblé pedem um projeto de revitalização e segurança para a Prainha.

SUPOSTAMENTE LAICO - De acordo com a professora Deis Elucy Siqueira, do Departamento de Sociologia da UnB, em termos comparativos pode-se considerar o Brasil o pais menos intolerante do Ocidente. "Aqui existe um sincretismo religioso constituinte, mas isso não quer dizer que não haja intolerância e que ela não precisa ser combatida", diz.

Na visão da professora Deis, a intolerância também decorre de uma necessidade de conquistar espaço público. "Vai desde ter uma bancada no Congresso a chutar uma santa na televisão. Nunca fomos um estado totalmente laico, só no papel", diz. "Desde sempre a religião foi manipulada politicamente." A docente cita outro caso de intolerância no DF, ocorrido no Vale do Amanhecer. "Quando a cidade se expandiu para moradores não adeptos da doutrina, os moradores originais sofreram constrangimento."

Para o professor Agnaldo Cuoco Portugal, do Departamento de Filosofia, os casos de intolerância não se tratam de mera questão doutrinária. "Eles crescem com o aumento no número de fiéis e o desejo de converter o praticante de outra religião", explica. "É possível dizer que a intolerância tenha aumentado por conta do crescimento dos grupos pentecostais, do proselitismo e de uma disputa no mercado religioso."

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