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Confusão, pancadaria e a mídia
Paulo Roberto Carmagnani Franco - São Paulo(SP) - 07/05/2007
A chamada Virada Cultural pode ser considerada um sucesso em São Paulo. O evento reuniu cerca de 3 milhões de pessoas em vários pontos da cidade com atrações gratuitas para todo tipo de público nos dias 5 e 6 de maio de 2007. A segurança em atividades desse tipo é complexa não só pelo número de pessoas, mas também pela diversidade do público.

Teria sido perfeito se não fosse a confusão entre policiais e fãs da banda Racionais MC's na praça da Sé. O confronto entre as duas partes também provocou confusão na cobertura da imprensa sobre o assunto. A primeira pergunta que fazemos quando nos deparamos com tais notícias é: Porque tanta violência? Nesse caso, os motivos são vários e ainda desconhecidos.

O portal da Agência Estado mostra duas versões: em uma delas, a nota afirma que o confronto começou "por volta das 5h30, quando a Tropa de Choque isolou a área, uma multidão entre o descontrole e o enfurecimento desceu pela Rua Direita e levou a confusão para a platéia que se divertia ali com a apresentação de Djs"

Na outra, o jornal afirma que "a demora para que o grupo subisse ao palco revoltou os presentes. Mas a confusão maior se iniciou quando um grupo de jovens começou a pichar prédios da Praça da Sé. A polícia tentou conter algumas vezes" - Pergunta: e de que forma a polícia tentou conter os pichadores? um grupo de pessoas pichando um muro é realmente motivo para o que se viu em praça pública?

A Folha de São Paulo diz que "a confusão começou por volta das 4h50, depois que o grupo de rap composto por Mano Brown, Edy Rock, Kl Jay e Ice Blue havia tocado por cerca de 25 minutos, quando algumas pessoas subiram em uma banca de jornal na lateral da praça. A PM exigiu que saíssem, o que iniciou o confronto. A Força Tática entrou em ação, atirando balas de borracha e bombas de efeito moral enquanto o show acontecia." - Pergunta: um grupo de pessoas subindo em uma banca de jornal é motivo para acionar a força tática, atirar balas de borracha e bombas de efeito moral? Não havia outra forma de conter esses jovens?

Em duas notícias diferentes, o portal G1 afirma que "na segunda música, parte da platéia começou a insultar policiais que reagiram com bombas de efeito moral" e que imagens do circuito de segurança mostraram que "uma parte do público se vira para os policiais e começa a provocá-los. Os PMs se afastam. Um grupo sobe em uma da banca de jornais e começa a pular sobre o teto".

Não pretendo desqualificar a ação da polícia nos eventos relatados, mas apenas levantar a questão do preparo para lidar com determinado tipo de público e evento. As informações da imprensa após o confronto são desencontradas e impedem uma análise mais profunda sobre os procedimentos adotados pela polícia. Seria interessante que outros membros do site do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostrassem as diferentes formas de se agir em situações semelhantes.

Abaixo, uma relação das diferentes versões para o início da baderna.

ESTADÃO

Por volta das 5h30, quando a Tropa de Choque isolou a área, uma multidão entre o descontrole e o enfurecimento desceu pela Rua Direita e levou a confusão para a platéia que se divertia ali com a apresentação de Djs. Durante o confronto com a PM, pelo menos seis pessoas ficaram feridas, 12 lojas foram depredadas e 14 pessoas foram presas.

ESTADÃO - 2

O show dos Racionais começou com duas horas de atraso e contou com pelo menos 10 mil pessoas. Por volta das 4h30 da madrugada, a Praça da Sé e as ruas em volta se transformaram em um verdadeiro campo de batalha entre policiais e o público do show. A área vip e até mesmo o palco foram invadidos.

A demora para que o grupo subisse ao palco revoltou os presentes. Mas a confusão maior se iniciou quando um grupo de jovens começou a pichar prédios da Praça da Sé. A polícia tentou conter algumas vezes, mas, sem sucesso, entrou no meio da multidão, deu tiros de balas e de borracha, e lançou bombas de efeito moral. Os presentes revidaram, jogando garrafas, pedras e, até mesmo, atirando.

FOLHA DE SÃO PAULO

A confusão começou por volta das 4h50. O grupo de rap composto por Mano Brown, Edy Rock, Kl Jay e Ice Blue havia tocado por cerca de 25 minutos quando algumas pessoas subiram em uma banca de jornal na lateral da praça.

A PM exigiu que saíssem, o que iniciou o confronto. A Força Tática entrou em ação, atirando balas de borracha e bombas de efeito moral enquanto o show acontecia. A resposta veio na forma de pedradas e garrafadas.

PORTAL TERRA CITANDO RÁDIO JOVEM PAN

Segundo informações da rádio Jovem Pan, a confusão começou por volta das 5h. O cantor Mano Brown tentou apaziguar a situação, mas a apresentação do grupo teve de ser interrompida.

A situação ficou mais complicada quando um grupo começou a pichar prédios na região. A Tropa de Choque da Polícia Militar chegou ao local por volta das 5h15 e, segundo a rádio, usou balas de borracha e bombas de efeito moral para conter a confusão.

PORTAL G1

Acabou em confusão e quebra-quebra o show do grupo de rap paulistano Racionais MC's, realizado na madrugada deste domingo (6) em um palco montado em frente à Catedral da Sé, na região central de São Paulo.

Na segunda música, parte da platéia começou a insultar policiais que reagiram com bombas de efeito moral. O show é uma das mais de 400 atrações da Virada Cultural, evento promovido pela prefeitura de São Paulo em vários locais públicos da cidade neste sábado e domingo.


G1 - 2
As primeiras imagens mostram PMs com uniformes de patrulhamento formando um cordão de proteção na frente das lojas. Uma parte do público se vira para os policiais e começa a provocá-los. Os PMs se afastam. Um grupo sobe em uma da banca de jornais e começa a pular sobre o teto.

Chega reforço policial e começa uma correrria. Alguns jogam pedras nos policiais militares. O público fica concentrado junto ao palco e, no meio da Praça da Sé, há explosões de bombas. Pela manhã, com o lugar vazio, ficam as imagens do vandalismo.


NOTA OFICIAL DA SECRETARIA

Durante a madrugada deste domingo, 6/5, na Praça da Sé, um grupo de pessoas que assistia a um show dos Racionais MCs começou a atacar policiais militares com pedras e garrafas e a depredar uma banca de jornal. Com a chegada de reforço da Força Tática e do Batalhão de Choque, o grupo se separou, depredou e saqueou lojas nas ruas -entre elas as Lojas Americanas e o Rei do Mate, oito viaturas da Polícia Militar, uma viatura da Guarda Civil Metropolitana, e dois carros particulares, um incendiado e outro danificado, orelhões e banheiros químicos, além de entrar nas instalações da estação Sé do Metrô e depredar 12 lojas e destruir seis bloqueios da estação.

5 Comentários
A meu ver são dois problemas, meu caro Paulo. O primeiro é que em nome da liberdade de informação os órgãos de mídia se despreocuparam da função social da propriedade e da responsabilidade para com a informação. O segundo é que a propaganda governamental, tão utilizada em nossos dias, obriga as autoridades políticas a construirem discursos de justificação de seus atos que não permitem uma visão simples e clara dos problemas. Essas idiossincrasias desconfortavelmente antagônicas levam o cidadão a uma escolha trágica: Confiar na mídia que usa os governos para se promover ou nos governos que usam a mídia para se justificarem.
Muito bom, Paulo Fanco, a verdadeira pesquisa que você fez para analisar a cobertura do evento. Concordo com você que em geral a maiora dos diários nao questionou sufucientemente a versão da polícia de que "não havia outra saída". À propósito, uma excelente matéria sobre isso encontra-se no site Nominimo.com, assinada por Xico Sá: http://ponteaereasp.nominimo.com.br/
Eu a acrescentaria à sua lista. Um abraço,
Silvia Ramos
Paulo, tumultos exigem ações policiais para serem controlados. Sempre que possível, a área deve ser isolada com emprego de tropa tática (com equipamento leve, treinamento específico e condicionada a não aceitar provocação), líderes identificados e dissuasão com palavras e demonstração de força. A tropa de choque só deve ser empregada em último caso. Porém há alguns aspectos a considerar: previsibilidade da ocorrência, disponibilidade de efetivo, a intensidade dos riscos para circunstantes e o nível e velocidade de vandalismo. Enfim o cenário desse tipo de evento é determinante para o tipo de ação. No caso em exame, provavelmente o planejamento de segurança para o show não contou com o suporte da inteligência para adoção das medidas pró-ativas possíveis. Mas uma coisa é certa, para restabelecer a ordem, a reação policial após esgotar as alternativas dissuasórias, tem limites e requer controle absoluto do comandante da operação.
Controlar tumultos requeirem um tato especial da polícia para lidar com a situação, principalmente no sentido de saber diferenciar, no caso em tela, se realmente se tratava de um tumulto. No caso do evento, saber diferenciar se não foi um excesso do público ao participar do evento ou se realmente queriam causar um tumulto, de forma a evitar que uma ação policial precipitada não venha a dar causa ao tumulto. No entanto, saliento que criticar a ação policial sem saber, detalhadamente, o que realmente aconteceu pode ser precipitado.
Parabéns, meu grande amigo. Continue dividindo seu extenso conhecimento conosco. Abço
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