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O poder municipal e a segurança pública
Jailson Miranda - Vitória(ES) - 11/12/2008
Em seu texto, o artigo nº 144 da Constituição Federal estabelece que Segurança Pública é "dever do Estado e responsabilidade de todos". Todavia, essa questão é bem mais abrangente do que se possa imaginar, pois envolve uma série de fatores necessários para se alcançar à tranqüilidade social.
Não se pode confundir Segurança Pública com policiamento. Este podemos considerar como um dever do Estado, mas a Segurança Pública não, esta é um problema de todos, do cidadão, da Justiça, do Ministério Público, e inclusive das Prefeituras. Infelizmente, muitos ainda insistem que um problema dessa gravidade é só da Polícia, como se tal Instituição pudesse, sozinha, atuar ante todos os fatores que condicionam a criminalidade, como a pobreza, o desemprego, discriminações sociais e econômicas, sistema educacional deficiente, entre outros.

Cotidianamente, policiais se deparam nas ruas com situações socialmente conflitantes, auxiliando as pessoas mais humildes nos atendimentos de emergências, recolhendo menores de ruas, mendigos, fazendo partos inesperados, lidando com as mais diversas tragédias pessoais. Assim, para salvar uma vida, é necessário percorrer inúmeros hospitais, e para auxiliar uma pessoa jogada nas vielas, é preciso transitar por todos os postos de apoio, e muitas das vezes deixar o cidadão sem atendimento em seu domicílio, a rua.

Entendemos então, que o controle e a prevenção da criminalidade são aspectos que vão muito além da ação da Polícia, dependem sim de um complexo de providências sociais, educacionais e assistenciais que necessariamente devem ser assumidos tanto pelo Estado, como pelas Prefeituras, e também pela sociedade, de forma planejada e democrática.

Isso se alia ao fato de que muitas das questões afetas a prevenção do crime estão intimamente ligadas a atribuições originárias da municipalidade. As deficiências na iluminação pública, bem como nas ações de controle da desordem em geral, como as pichações, ambulantes que obstruem as calçadas, o lixo espalhado pelas ruas, ruídos excessivos em bares e danceterias, são fatores que devem ser levados em conta na análise das estatísticas da violência.

As Prefeituras podem contribuir de forma satisfatória para as soluções de alguns dos problemas de Segurança Pública, exercendo seu papel de regulamentação e fiscalização, cuidando da ordem no município, com ações tais como: fiscalização de desmanches, controle de regulamentação de eventos, fiscalização da venda de bebidas alcoólicas e atuação junto a bares e comércios clandestinos, e ainda quanto a higiene e regularidade de hotéis, os quais acabam por dar suporte á prostituição nas ruas.

Como sugestão para melhor gerir a problemática apresentada, apresentamos a criação de Conselhos Interativos de Segurança nos municípios, ONG's que congreguem representantes das Prefeituras, da Câmara Municipais, das Polícias Civil e Militar, do Poder Judiciário, do Ministério Público, de entidades civis prestadoras de serviço e de representante das comunidades.

A estes conselhos caberia o diagnóstico dos problemas vinculados à violência no Município, o estabelecimento de programas coordenados de ações e o acompanhamento e implementação dos trabalhos comunitários, além da administração de possíveis fundos provenientes de orçamento e doações.

Com efeito, podemos afirmar que nas localidades onde existe a união desses esforços, como em algumas cidades do Estado, é visível a queda dos índices de criminalidade, sendo este o resultado de um trabalho conjunto e participativo, envolvendo inúmeros atores, os quais efetivamente participam do planejamento das ações de Segurança Pública de seu município.

Assim, para buscar a eficiência necessária para melhoria da qualidade de vida do cidadão e tornamos possível o controle da criminalidade, é preciso que todos se sintam responsáveis pela Segurança Pública, para que a cada rua, a cada bairro, em cada cidade, o cidadão possa fazer valer suas idéias e opiniões, possa expressar, através dessa filosofia interativa, a cidadania que todos nós um dia sonhamos exercitar.


7 Comentários
http://www.guaraparivirtual.com.br/colunas_mj_miranda.asp?varcod=95
Embora óbvia a importância do Município nas questões ligadas à Segurança Pública, sem dúvida há um grande paradigma a ser quebrado, principalmente devido à enorme resistência existente nas instituições policiais que temem pela perda de "seu" espaço.
No entanto, quem realmente está perdendo com isso é a população.
Muito bom !!!
Boa, oportuna, profunda e necessária sua abordagem e análise da questão dos Municipios no restrito campo da Segurança Pública.

Parabens em azul marinho !
a desconstitucionalização das polícias já deveria ser uma realidade a ser implementada. Os interesses pessoais de quem se opõe ferozmente para que esse monopólio se eternize deveriam ser paulatinamente banidos. Os munícipios deveriam assumir as suas responsabilidades e investirem em segurança pública, desqualificando o "cabide de emprego" de oficiais à disposição e agindo de forma séria e austera na ostensividade para prevenção de delitos, além de ações sociais,culturais e infraestrutura.
Parabéns Jailson, bela dissertação. O Sistema de Segurança Pública tem no município um dos seus principais entes. Entretanto, vivemos no Brasil. Infelizmente, existe despreparo político para uma ampliação das atribuições municipais. Muitos prefeitos não querem se envolver e existem também muito em jogo. O monopólio da Segurança Pública é fato. Somente quando a sociedade entender de que maneira e amplitude isso impacta na sua segurança e no orçamento público, e de como as ramificações desse mecanismo fortaleçe a segurança privada e tráfico de influência, poderemos almejar mudanças significativas.
Excelente artigo, que mostra que a segurança pública vai muito além do policiamento, e a sociedade e o município têm muito a colaborar para a prevenção e manutenção da ordem pública, sem, necessariamente, assumir posições constitucionais de organizações policiais.

No comando do policaimento de área da periferia já trabalhei conjuntamente com órgãos municipais e conseguimos grandes avanços em termos de segurança para as comunidades da região em que trabalhávamos. Ações da subprefeitura que iam desde poda em árvores que tornavam áreas escuras e perigosas à noite até na interdição de bares irregulares, entre outras, aliados ao patrulhamento inteligente da Polícia Militar fizeram daquela região um local mais seguro para a população.

Experiências como essa mostram que muito se pode fazer, se cada qual cumprir a sua missão, com colaboração mútua, sem a necessidade de mudanças na legislação ou mesmo na Constituição Federal.
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