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Violência e vida em sociedade II
Armando Carlos Alves - S/Info() - 31/08/2009
O CICLO DA AGRESSÃO
A socialização ao mesmo tempo que canaliza a agressão livre, que é para o indivÃduo origem de angústia, torna possÃvel que ele se liberte do medo e cria-lhes deveres coactivamente impostos.
"A repressão dos instintos de agressão livre e desenfreada é compensada, pelo menos parcialmente, através da permissão do direito à agressão dado pelas instituições".
É talvez por esta razão que uma atitude que seria normalmente considerada como muito agressiva e violenta não é vista nem entendida deste modo "desde que esteja em conformidade com as instituições, as razões de Estado, as tradições e a voz da consciência".
Quando a agressão colectiva é regulada por instituições o indivÃduo como tal fica-lhe subordinado. E, a partir da organização, são-lhe exigidos em nome do colectivo todos os actos e mesmo "crimes" proibidos para sua satisfação pessoal.
Quando aplicada ao mundo exterior, a violência pode representar um grito de socorro e uma expressão de desespero... A exteriorização da agressão, principalmente quando assume a forma de violência manifesta, tem um função de escape. Facilita a descarga afectiva e favorece a catarse. Aplica-se, pois, desde sempre, como tentativa para mudar a situação. Nos perÃodos de agitação, os detentores do poder desviam a agressão latente ou explosiva para inimigos exteriores e, assim, encobrem os defeitos existentes no interior do seu próprio campo, que se une e forma um bloco ante a ameaça exterior.
Acontece ainda que, para exercer estas funções e tantas outras, a forma manifesta de agressão, a violência, acaba por se constituir em objecto de uma planificação funcional, nacional e, muitas vezes, transforma-se num fim. O facto de se considerar exclusivamente a violência (e até mesmo a agressão) segundo o padrão de perda controlo, explosão e sintoma patológico, permite uma verdadeira falsificação... Por detrás da agressão "sintomática" oculta-se uma estratégia da agressão. Continua a ser necessário descrever o ciclo da agressão de uma forma sistemática. A agressão livre, que se expressa pela força bruta e sem peias, é a violência e está condicionada por instituições interiores (consciência e carácter) e por instituições exteriores (regras, normas, grupos e organizações). Assim, é dirigida, controlada e intensificada por estes factores. Ela aparece como agressão dissimulada, oculta e frequentes vezes inconsciente, que apenas "é mobilizada por circunstâncias bem determinadas em nome da necessidade, do dever e da auto-defesa; quer dizer, de um todo superior que não necessita ser legitimado". Pode assim ver-se como a agressão própria das instituições resulta, afinal e em princÃpio, do processo biológico da agressão humana.
Mas, nem o equilÃbrio interior dos indivÃduos nem a convivência em sociedade são inteiramente compatÃveis com a violência. Quer seja um sintoma ou uma estratégia, a violência ocasiona, por sua vez, a nÃvel dos grupos e das sociedades, o aparecimento e a consolidação de "autoridades destinadas a controlar e canalizar a agressão livre, a unificá-la e dirigi-la num determinado sentido".
Existe, então, um ciclo da agressão, que permite abarcar as suas caracterÃsticas individuais, tal como os seus aspectos na vida em grupo e, com complexidade acrescida, as suas implicações no funcionamento das sociedades, das sociedades polÃticas a nÃvel interno e mesmo da sociedade internacional.
A repressão da agressão livre e desenfreada encontra compensação na agressão institucionalmente consentida, isto é, que esteja de acordo com as regras do grupo, as tradições sociais, as razões de Estado... Passa a existir a agressão institucionalizada, que assume mesmo formas colectivas, subordinando os indivÃduos e os grupos à ordem social em termos organizados e coactivos, obrigando até a agressões planificadas, que são expressamente proibidas aos indivÃduos para sua satisfação pessoal. Assim, a agressividade pode ser controlada, dirigida e intensificada -aparecendo sob a forma de agressão dissimulada e muitas vezes inconsciente -e é mobilizável em determinadas circunstâncias, em nome da satisfação de necessidades, do cumprimento do dever e da auto-defesa. Verifica-se como a agressão institucional continua ligada ao processo biológico da agressividade humana, constituindo-se um verdadeiro ciclo da agressão em que esta passa de individual a colectiva e controlada, e assume complexidade crescente por motivo das implicações próprias dos indivÃduos, dos grupos, das sociedades politicamente organizadas e da sociedade internacional.
(continua)
A socialização ao mesmo tempo que canaliza a agressão livre, que é para o indivÃduo origem de angústia, torna possÃvel que ele se liberte do medo e cria-lhes deveres coactivamente impostos.
"A repressão dos instintos de agressão livre e desenfreada é compensada, pelo menos parcialmente, através da permissão do direito à agressão dado pelas instituições".
É talvez por esta razão que uma atitude que seria normalmente considerada como muito agressiva e violenta não é vista nem entendida deste modo "desde que esteja em conformidade com as instituições, as razões de Estado, as tradições e a voz da consciência".
Quando a agressão colectiva é regulada por instituições o indivÃduo como tal fica-lhe subordinado. E, a partir da organização, são-lhe exigidos em nome do colectivo todos os actos e mesmo "crimes" proibidos para sua satisfação pessoal.
Quando aplicada ao mundo exterior, a violência pode representar um grito de socorro e uma expressão de desespero... A exteriorização da agressão, principalmente quando assume a forma de violência manifesta, tem um função de escape. Facilita a descarga afectiva e favorece a catarse. Aplica-se, pois, desde sempre, como tentativa para mudar a situação. Nos perÃodos de agitação, os detentores do poder desviam a agressão latente ou explosiva para inimigos exteriores e, assim, encobrem os defeitos existentes no interior do seu próprio campo, que se une e forma um bloco ante a ameaça exterior.
Acontece ainda que, para exercer estas funções e tantas outras, a forma manifesta de agressão, a violência, acaba por se constituir em objecto de uma planificação funcional, nacional e, muitas vezes, transforma-se num fim. O facto de se considerar exclusivamente a violência (e até mesmo a agressão) segundo o padrão de perda controlo, explosão e sintoma patológico, permite uma verdadeira falsificação... Por detrás da agressão "sintomática" oculta-se uma estratégia da agressão. Continua a ser necessário descrever o ciclo da agressão de uma forma sistemática. A agressão livre, que se expressa pela força bruta e sem peias, é a violência e está condicionada por instituições interiores (consciência e carácter) e por instituições exteriores (regras, normas, grupos e organizações). Assim, é dirigida, controlada e intensificada por estes factores. Ela aparece como agressão dissimulada, oculta e frequentes vezes inconsciente, que apenas "é mobilizada por circunstâncias bem determinadas em nome da necessidade, do dever e da auto-defesa; quer dizer, de um todo superior que não necessita ser legitimado". Pode assim ver-se como a agressão própria das instituições resulta, afinal e em princÃpio, do processo biológico da agressão humana.
Mas, nem o equilÃbrio interior dos indivÃduos nem a convivência em sociedade são inteiramente compatÃveis com a violência. Quer seja um sintoma ou uma estratégia, a violência ocasiona, por sua vez, a nÃvel dos grupos e das sociedades, o aparecimento e a consolidação de "autoridades destinadas a controlar e canalizar a agressão livre, a unificá-la e dirigi-la num determinado sentido".
Existe, então, um ciclo da agressão, que permite abarcar as suas caracterÃsticas individuais, tal como os seus aspectos na vida em grupo e, com complexidade acrescida, as suas implicações no funcionamento das sociedades, das sociedades polÃticas a nÃvel interno e mesmo da sociedade internacional.
A repressão da agressão livre e desenfreada encontra compensação na agressão institucionalmente consentida, isto é, que esteja de acordo com as regras do grupo, as tradições sociais, as razões de Estado... Passa a existir a agressão institucionalizada, que assume mesmo formas colectivas, subordinando os indivÃduos e os grupos à ordem social em termos organizados e coactivos, obrigando até a agressões planificadas, que são expressamente proibidas aos indivÃduos para sua satisfação pessoal. Assim, a agressividade pode ser controlada, dirigida e intensificada -aparecendo sob a forma de agressão dissimulada e muitas vezes inconsciente -e é mobilizável em determinadas circunstâncias, em nome da satisfação de necessidades, do cumprimento do dever e da auto-defesa. Verifica-se como a agressão institucional continua ligada ao processo biológico da agressividade humana, constituindo-se um verdadeiro ciclo da agressão em que esta passa de individual a colectiva e controlada, e assume complexidade crescente por motivo das implicações próprias dos indivÃduos, dos grupos, das sociedades politicamente organizadas e da sociedade internacional.
(continua)
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