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Violência e vida em sociedade V
Armando Carlos Alves - S/Info() - 21/09/2009
A VIOLÊNCIA POLÍTICA
Partindo da conclusão de Tilly de que "a violência colectiva pertence à vida política", Baselga e Urquijo, numa perspectiva europeia, desenvolvem a teorização da legalidade, da legitimação social e dos sistemas políticos, destacando que a legalidade dos actos está determinada por procedimentos formais da comunidade e que os actos são legítimos se a comunidade os vê como desejáveis ou justificáveis.
A fonte de toda a lei deve encontrar-se mais na sociedade em si própria do que no legislador ou na autoridade do Estado. Mas a cada vez maior complexidade social parece exigir uma cada vez maior intromissão do poder legislativo em todas as áreas da interacção humana, sucedendo que há uma esfera cada vez mais importante de normas compulsivas do Estado. Isto é particularmente visível no campo da organização militar, dos impostos, da administração pública e da polícia.
Na medida em que o sistema político perca o seu carácter democrático e se torne mais totalitário, tenderá para controlar cada vez mais os poderes legislativo e executivo e a perder contacto com a opinião pública. Nos Estados modernos, com o crescimento da industrialização e da urbanização e com o aumento da educação das populações, a convivência humana torna-se mais complexa e exigente, pelo que sempre se torna fácil a multiplicação de grupos de insatisfeitos e descontentes prontos a combater o sistema estabelecido.
Tais grupos podem obter o apoio de parte da massa populacional e vir a manifestar-se de formas mais ou menos violentas. A história do mundo ocidental nos últimos séculos mostra que têm sido raros os períodos largos de paz absoluta, a não ser quando o controlo social e a repressão conseguiram superar a oposição. Verifica-se que quando os grupos de descontentes encarnam o sentir do povo as forças de controlo não os conseguem desarticular completamente, e que quando contam com o apoio da massa populacional é enormemente eficaz a sua capacidade para escapar aos controlos da polícia e do exército. As guerras de guerrilha em vários países são exemplos acabados do que fica afirmado.
Nas sociedades mais liberais é bastante provável que a flexibilidade do próprio sistema permita formas e instâncias legais de protesto, amortecendo assim exteriorizações desviantes dos descontentes, o que não invalida que continuem a surgir formas ilegais de protesto pelas mais diversas razões. De qualquer modo, em toda a sociedade dinâmica, haverá sempre que contar com a existência de grupos de descontentes ou insatisfeitos e com grupos de conservadores e, portanto, com confrontações de interesses, em situações de maior ou menor agressividade e violência. Quando se trata de grandes massas de população, surge como adicional a dificuldade de coordenar os descontentamentos que aparecem em diferentes sectores e níveis. Enquanto uns sectores podem sentir-se frustrados na satisfação das suas necessidades primárias, outros sectores podem estar satisfeitos neste plano mas sentirem-se frustrados em aspectos da sua realização humana.
Para fazer face a tais situações, tanto exércitos como polícias acabaram por criar e aperfeiçoar novas técnicas de controlo efectivo da violência e, na maioria dos casos, violentas em si próprias... Os poderes políticos que, a princípio, controlaram as revoltas com os exércitos, foram sucessivamente ultrapassando estes com os corpos de polícia. Os grupos de dissidentes em oposição, por seu lado, passaram a estar protagonizados em grande parte por activistas ideológicos.
O facto de os governos modernos terem monopolizado o controlo da ordem pública e a defesa dos particulares faz com que o poder político se veja cada vez mais envolvido nas confrontações de tipo laboral, ou nos motins e tumultos que possam envolver ameaças para a ordem estabelecida.
Os esforços com a finalidade de substituir a violência desordenada da "luta" pela regulamentação do "combate" desenvolveram-se em dois planos: o da política interna e o da política externa.
É claro que não pode ser ignorada a importância que as forças armadas, principalmente orientadas para objectivos externos, também têm como modo de inspirar respeito pela lei e pela autoridade governamental no interior do seu território.
Resta chamar a atenção para o facto de a criação e o desenvolvimento de forças armadas e de corpos de polícia, altamente organizados e treinados, baseados em agentes humanos, terem dado origem ao aparecimento de administradores e gestores profissionais, especializados em lidar com a violência.
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
BASELGA e URQUIJO - Sociologia y Violencia".
FREUND, Julien - Sociologie du Conflit.
GOOD, William J. - The Place of Force in Human Society.
HACKER, Friedrich - Agressividade, a Violência no Mundo Moderno.
LARA, António de Sousa - A Subversão do Estado.
LORENZ, Konrad -Agressão, Uma História Natural do Mal.
MOREIRA, Adriano - Ciência Política.
TILLY, Charles - Hardship and Collective Violence in France.
Partindo da conclusão de Tilly de que "a violência colectiva pertence à vida política", Baselga e Urquijo, numa perspectiva europeia, desenvolvem a teorização da legalidade, da legitimação social e dos sistemas políticos, destacando que a legalidade dos actos está determinada por procedimentos formais da comunidade e que os actos são legítimos se a comunidade os vê como desejáveis ou justificáveis.
A fonte de toda a lei deve encontrar-se mais na sociedade em si própria do que no legislador ou na autoridade do Estado. Mas a cada vez maior complexidade social parece exigir uma cada vez maior intromissão do poder legislativo em todas as áreas da interacção humana, sucedendo que há uma esfera cada vez mais importante de normas compulsivas do Estado. Isto é particularmente visível no campo da organização militar, dos impostos, da administração pública e da polícia.
Na medida em que o sistema político perca o seu carácter democrático e se torne mais totalitário, tenderá para controlar cada vez mais os poderes legislativo e executivo e a perder contacto com a opinião pública. Nos Estados modernos, com o crescimento da industrialização e da urbanização e com o aumento da educação das populações, a convivência humana torna-se mais complexa e exigente, pelo que sempre se torna fácil a multiplicação de grupos de insatisfeitos e descontentes prontos a combater o sistema estabelecido.
Tais grupos podem obter o apoio de parte da massa populacional e vir a manifestar-se de formas mais ou menos violentas. A história do mundo ocidental nos últimos séculos mostra que têm sido raros os períodos largos de paz absoluta, a não ser quando o controlo social e a repressão conseguiram superar a oposição. Verifica-se que quando os grupos de descontentes encarnam o sentir do povo as forças de controlo não os conseguem desarticular completamente, e que quando contam com o apoio da massa populacional é enormemente eficaz a sua capacidade para escapar aos controlos da polícia e do exército. As guerras de guerrilha em vários países são exemplos acabados do que fica afirmado.
Nas sociedades mais liberais é bastante provável que a flexibilidade do próprio sistema permita formas e instâncias legais de protesto, amortecendo assim exteriorizações desviantes dos descontentes, o que não invalida que continuem a surgir formas ilegais de protesto pelas mais diversas razões. De qualquer modo, em toda a sociedade dinâmica, haverá sempre que contar com a existência de grupos de descontentes ou insatisfeitos e com grupos de conservadores e, portanto, com confrontações de interesses, em situações de maior ou menor agressividade e violência. Quando se trata de grandes massas de população, surge como adicional a dificuldade de coordenar os descontentamentos que aparecem em diferentes sectores e níveis. Enquanto uns sectores podem sentir-se frustrados na satisfação das suas necessidades primárias, outros sectores podem estar satisfeitos neste plano mas sentirem-se frustrados em aspectos da sua realização humana.
Para fazer face a tais situações, tanto exércitos como polícias acabaram por criar e aperfeiçoar novas técnicas de controlo efectivo da violência e, na maioria dos casos, violentas em si próprias... Os poderes políticos que, a princípio, controlaram as revoltas com os exércitos, foram sucessivamente ultrapassando estes com os corpos de polícia. Os grupos de dissidentes em oposição, por seu lado, passaram a estar protagonizados em grande parte por activistas ideológicos.
O facto de os governos modernos terem monopolizado o controlo da ordem pública e a defesa dos particulares faz com que o poder político se veja cada vez mais envolvido nas confrontações de tipo laboral, ou nos motins e tumultos que possam envolver ameaças para a ordem estabelecida.
Os esforços com a finalidade de substituir a violência desordenada da "luta" pela regulamentação do "combate" desenvolveram-se em dois planos: o da política interna e o da política externa.
É claro que não pode ser ignorada a importância que as forças armadas, principalmente orientadas para objectivos externos, também têm como modo de inspirar respeito pela lei e pela autoridade governamental no interior do seu território.
Resta chamar a atenção para o facto de a criação e o desenvolvimento de forças armadas e de corpos de polícia, altamente organizados e treinados, baseados em agentes humanos, terem dado origem ao aparecimento de administradores e gestores profissionais, especializados em lidar com a violência.
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
BASELGA e URQUIJO - Sociologia y Violencia".
FREUND, Julien - Sociologie du Conflit.
GOOD, William J. - The Place of Force in Human Society.
HACKER, Friedrich - Agressividade, a Violência no Mundo Moderno.
LARA, António de Sousa - A Subversão do Estado.
LORENZ, Konrad -Agressão, Uma História Natural do Mal.
MOREIRA, Adriano - Ciência Política.
TILLY, Charles - Hardship and Collective Violence in France.
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Comentários
Comentários
Aldo Antonio dos Santos Júnior - Florianópolis(SC) - 23/09/2009 - 05:00
Excelente ensaio.
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