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Legalização das Drogas - Um salto no escuro!
Nelson José S. Nascimento - Aracaju(SE) - 11/12/2009
Por ser dom e parte indissociável da condição de ser humano, constantemente revejo e reviso minhas posições, opiniões e conceitos face às rápidas e constantes mudanças cotidianas verificadas no mundo e na sociedade em que estamos inseridos.
Algumas condicionantes que emolduram permanentemente a individualidade, claro, conservam-se imutáveis. Caráter, ética, moral, pudor, com o passar do tempo sofrem acréscimos, nunca dissipações ou transformações radicais.
Por conta disso, não sei se por pragmatismo ou puro reacionarismo mesmo, não consigo digerir plenamente certos avanços conceituais surgidos recentemente na discussão mundial sobre controle do uso e tráfico de drogas ilícitas.
Recentemente li artigo-reportagem atribuído a Jack Cole, fundador do Law Enforcement Against Prohibition (Policiais contra proibição), publicado no site Comunidade Segura sob o título "Ponto final na guerra contra as drogas"*, e confesso sinceramente que, apesar da aparente seriedade de propósitos da Fundação, os argumentos esgrimidos ali sobre legalização pura e simples das drogas não me convenceram do acerto e da utilidade concreta desta abordagem.
Seu conteúdo mostra-se superficial, despido de critérios e informações fundamentais sobre possíveis desdobramentos acerca da medida, senão parece apenas uma teimosia juvenil da legalização pela legalização -principalmente sendo em terras alheias.
Baseado em números estatísticos brutos, sem a devida lapidação da análise conjuntural e estrutural do momento histórico e da região em que foram colhidos, o entrevistado tenta introduzir uma receita que, segundo ele, porá um ponto final na conduta violenta observada nos grandes centros urbanos. E vai mais além: "... não dou mais que dez anos para isso tudo (a guerra às drogas) acabar", vaticina.
Sem embargo, o modelo empolga e agrada mais a especialistas de gabinete, adeptos a experimentos sociais controvertidos em comunidades estrangeiras, que àqueles interessados em por mais luzes no debate acerca do fenômeno das drogas.
A abstração -nada mais que isso -de que a legalização total das drogas, por si só, é capaz de reduzir drasticamente os atuais índices crescentes de violência e criminalidade, não passa de renomada balela, de retumbante engodo.
A propositura inusitada não leva em conta dados elementares da dinâmica social. A exemplo de outros artigos de mesma tendência, insiste em trazer o episódio único e surrado do fim da proibição do álcool em 1933 nos EUA, como paradigma e lição sobre a consequente derrocada do crime organizado e rebaixamento da violência. Esquecem-se, os autores da idéia, de perlustrar as minudências de outros fatores importantíssimos para o cabal esclarecimento da proposição.
Primeiro, a mágica da legalização das drogas não fará desaparecer de chofre uma legião inteira de dependentes espalhada mundo afora. Diferentemente de 1933, herdaremos a inquietação do que fazer com este contingente imenso de drogados perambulando pelos continentes. Pergunta-se: a proposta de extinção da proibição prevê que o mercado de drogas se realinhe automaticamente, sem intervenção do Estado e desabastecimentos? Qual seria o primeiro país a adotar unilateralmente a medida, incorrendo no risco de transformar-se prontamente em paraíso do consumo? Os EUA, como xerife do mundo? Duvido! Qual o custo em estrutura de saúde pública, a ser desembolsado pelo contribuinte, para bancar toda esta aventura sociológica? E mais: caso não seja uma decisão planetária, o Estado pioneiro seria proprietário de toda cadeia produtiva do entorpecente, com fazendas de maconha, coca e papoula -sujeitando-se a subverter radicalmente a função social da terra, através de uma reforma agrária às avessas? Implantaria e manteria laboratórios de produção e refino, logística de transportes e controle de pontos de distribuição, cujos quadros seriam de funcionários públicos concursados? Terceirizaria total ou parcialmente todo o processo, mantendo-se apenas na administração do negócio? A droga seria vendida diretamente pelo Estado, a preços subsidiados, ou simplesmente doada a quem se dispusesse a preencher um formulário de cadastro? Não sendo assim, tudo seria deixado à livre e espontânea regulação do "sr. mercado", conformando demanda e preço de acordo com as flutuações da lei de oferta e procura?
Em segundo lugar, não está bem claro na exposição da extinção da proibição quais os mecanismos de aferição e mensuração do esperado decréscimo dos níveis de criminalidade. A mera suposição de seu retraimento baseado tão somente no exemplo longínquo e descontextualizado do fim da lei seca em 33, não explicita de forma cabal o objetivo apregoado e soa desarrazoado.
São pontos a esclarecer, mas que ninguém ousa mencionar! São perguntas e assertivas tão diminutas que as eminências que se debruçam sobre o caso não têm tempo nem paciência para se dignar respondê-las.
A situação é de extrema gravidade e não comporta soluções absolutamente comezinhas!
Por outro lado, é inegável que a violência urbana, experimentada hoje em todo o mundo, tem fortes raízes no tráfico e consumo de drogas. Mas, daí a afirmar que somente a legalização, como panacéia, traria enorme descompressão em seus níveis é, no mínimo leviano, para não dizer irresponsável.
A violência e o crime têm muitas outras raízes fincadas, principalmente, no abismo da desigualdade social; na desesperança causada pela corrupção inibidora do crescimento do estado; na quadra histórica de cada povo; na intrincada composição geopolítica e geoeconômica de determinada região; no desacerto de políticas públicas de governo; na cupidez de certos pesquisadores etc. Não só e unicamente no problema das drogas.
Neste ponto é bom esclarecer ao leitor menos avisado que, à primeira vista, as indagações e reflexões expostas podem parecer coisas de traficante ressentido, discurso de organização criminosa empedernida interessada em dar sustentação mercadológica a seu empreendimento, inculpando o Estado por sua tradicional incompetência em manejar processos complexos de demanda social. Todavia, um olhar mais atento revelará que este mesmíssimo argumento, com sinais trocados, está presente no curso de toda peroração sobre a legalização das drogas.
Por fim e não devidamente convencido da sensatez da extinção da proibição, permaneço agarrado à idéia de que o melhor caminho a ser trilhado na busca de soluções para o problema das drogas, passa pela descriminalização do uso e porte de pequenas quantidades.
Temos exemplos palpáveis a seguir. Sem legalizar e sem esquecer o combate ao tráfico, há dez anos e silenciosamente, Portugal desenvolve uma política plenamente sustentável de descriminalização que vem apresentando resultados animadores.
Então, por que um salto dessa magnitude no escuro?...

(*A matéria citada pode ser encontrada no link:

10 Comentários
Nelson, aqui neste mesmo site inseri um artigo sobre o tema que é importante e atual. Gostaria que companheiros nossos emitissem, como você, opiniões fundamentadas sobre o assunto. Na verdade, ninguém sabe o caminho a seguir. Apenas se sabe que o que está sendo feito não está dando certo. Sds.
Senhores,
É com grande satisfação e apreço que registro as observações dos leitores Paulo e Enrique acerca deste artigo. Satisfação duplamente reconhecida por ser Enrique morador da mesma cidade em que resido e Paulo por partilharmos as mesmas origens profissionais, o Departamento de Polícia Federal.
Em seu comentário, Sette Câmara toca em dois pontos que particularmente me são muito caros: a sentida ausência de opiniões abalizadas de colegas que convivem com o problema das drogas no cotidiano funcional e a angustiante constatação de que ainda não achamos o rumo definitivo para por fim ou controlar essa praga.
Por sua vez, a colaboração de Enrique ratifica a essência do texto e deixa patente o desacerto da política de legalização -mesmo experimentada em escala diminuta (parcialmente em pequenos e poucos países) -, quando aponta o desiderato de reversão à proibição legal nestes Estados, em virtude do dramático equívoco da liberação geral.
Por outro lado, caros amigos, devemos transformar esses pequenos percalços em renovado expediente diário de busca, pesquisa, estudo e correção de rumo para, enfim, com inaudito alento, persistirmos na procura do Santo Graal do controle às drogas.
Por conta disso, penso que não devemos e nem podemos esmorecer as escaramuças deste bom combate. É deveras gratificante saber que não estamos sós!
Obrigado.
Legalizar drogas, à meu ver, é o mesmo que querer legalizar produtos contrabandiados e vendidos pelo trabalho informal (camelôs), ou seja, é chover no molhado.

Legalizar drogas só criará uma concorrência pela destinação da receita, proveniente da venda da mesma. Uma concorrência entre o tráfico e o estado. Uma nova guerra previamente anunciada, onde o povo, mais uma vês, ficará no meio do fogo cruzado.

Droga é resposta. É efeito e não, a causa. É preciso tratar a causa para minimizar o efeito. Uma resposta alternativa que os jovens precisariam é o governo COLOCAR UM PSICÓLOGO EM CADA ESCOLA, PÚBLICA E PARTICULAR, para minimizar nos alunos (e até nos pais), possíveis conflitos, decorrentes de questões familiares, amorosos, de auto-estima, separações, divórcios, etc, para que não venham buscar em alternativas nocivas, a falsa (e provisória) sensação de alívio.

Não há mais a preocupação com a constituição do caráter do indivíduo (os filhos) e assim sendo, os pais não sabem o que dizer, orientar ou mesmo como e para quê, educar os filhos.
Prima-se por uma educação provisória, suficiente apenas para uma convivência satisfatória, mas sem nenhum efeito duradouro. Pais são quase sempre, AUSENTES PRESENTES, isto é, sem nenhuma cumplicidade ou comprometimento com as atividades ou desempenho social, psicológico e emocional dos filhos.

Famílias estão cada vês mais dispersas e o que é pior: Estão se acostumando com isso, perdendo assim, contato, afeto e também, cumplicidade. Quando resolverem reunir a familia novamente, poderá ser tarde demais.

É DISSO QUE O TRÁFICO VIVE, DE UMA VIDA FAMILIAR CONTURBADA E CHEIA DE CRISES E CONFLITOS, ONDE OS FILHOS VÃO BUSCAR, NAS DROGAS, O ALÍVIO OU O ESQUECIMENTO OU UMA COMPENSAÇÃO DO SEU MOMENTO.

Buscamos resolver estes conflitos e o tráfico, se depender disso (pena que não) irá à falência. Ao menos sofreria um grande e significativo prejuízo. Podem apostar.

A resposta, pelas drogas (assim como as festas Raves), apesar do que possa parecer, é uma resposta involuntária, ainda que consciente. Podem acreditar !

Amadeu Epifânio
Projeto Conscientizar
Viver bem é Possível !
Caro Amadeu,
Primeiramente, obrigado por suas considerações a respeito do tema.
Em segundo lugar, você acerta em cheio o ponto mais sensível da questão das drogas: a família.
Como bem disse, a desestruturação desta célula é um dos motores -senão o mais importante -que empurra os jovens ao consumo desbragado e, posteriormente, ao subtráfico e à violência. É imperativo que se repense os padrões familiares, principalmente no que tange a falta de imposição de limites aos filhos e a busca desvairada por sucesso e dinheiro a qualquer custo, em detrimento do afeto mútuo, da compreensão, da presença (de corpo e alma) e do diálogo no lar.
Ainda em seu texto, não estou bem certo se o governo (estado) desempenharia um papel satisfatório disponibilizando psicólogos em escolas. Apenas a tarefa fundamental de ensinar já lhe tem imposto pesadíssimo fardo.
Acredito mais em amplo trabalho de conscientização junto à sociedade, deixando de lado paixões e posições individualistas ou de grupos.
Há ainda um longo caminho a ser trilhado. Não podemos parar agora.
Viver bem é possível, sim!
Num país onde o cidadão de bem não pode portar uma arma para deseja própria e de seus próximos, muito menos adiquirir armamento adequado para defender seu lar, porque se diz ser arma de guerra, só para quem não sabe nada de armamentos mesmo e nem conhece a realidade dos países vizinhos ao brasil... e tem gente que ainda quer legalizar drogas... só pode ser brincadeira...

Mas cmo o Brasil caminha mal e devido a quantidade de porcarias que viraram lei qualquer pessoa de bem fica horrorizada quando ouve discussão proponda a legalização das drogas uma vez que suspeita que também isto ocorrerá.

Legalização de drogas é algo que não se pode nem discutir, nem se aceitar discussão - pelo menos em meios sérios onde freqüêntam pessoas sérias -, para que não se possa fazer alusão de apologia.

Por outro lado, eu como liberal entendo que para o que seja do íntimo do indivíduo não cabe intervenção e este deve ser senhor de si, todavia num país onde a legítima defesa virou crime legalizar drogas seria o epítome iconseqüência.
Prezado Nelson, agradeço por suas palavras e só gostaria de enfatizar (sem querer contrariá-lo) que, os jovens necessitam de pessoas de confiança para desabafarem suas frustrações e conflitos e, como a família nunca está presente o suficiente para passar esta confiança, resta aos jovens buscar, fora de casa, esses "ouvidos". Por isso a necessidade de um profissional capacitado, mais próximo dos jovens, para este desafio. Conscientização é importante, porém acredito que nesses casos, não trará os resultados esperados.

Se não der para colocar psicólogos nos colégios, façam-se convênios ou se promovam rodas de debates ou coisa parecida. A questão é que os jovens estão precisando desabafar e dividir seus problemas emocionais e não podemos deixar que façam isso com qualquer pessoa. Espero que me compreenda, prezado amigo.
Forte abraço.

Saudações,

Amadeu Epifânio
É com profunda gratidão que anoto a réplica de Amadeu e a estréia de Luiz Augusto na discussão do artigo. Debate lúcido se faz assim, com proposições desprendidas de paixões intransponíveis.
Entretanto, gostaria e fazer algumas observações a cada um dos comentários. Reconheço que não entendi muito bem o paralelo, levantado por Luiz Augusto, entre restrição ao porte e propriedade de arma de fogo e legalização das drogas. É certo que são coisas que andam de mãos dadas no submundo e concorrem para formação de um horizonte sombrio para humanidade. Mas, daí a juntá-las uma à outra como excludentes ou concorrentes entre si, não percebi qual a resultante benéfica ou, ao menos, didática dessa comparação.
Por sua vez, devo lembrar ao elegante Amadeu que seus contra-argumentos jamais vão me contrariar ou causar incompreendidos de minha parte. Nossa peleja é no campo das idéias e, nenhum de nós pode ser arvorar em dono absoluto da verdade. Noto com prazer que são coincidentes nossos pontos de vistas sobre a necessidade de os jovens terem um ouvido ou um ombro amigo para desabafos e esclarecimentos, à míngua destes recursos em seus lares. O único ponto de discordância está em acometer esta obrigação ao Estado, pelos mesmos motivos expostos acima.
Amigo Nelson, saiba que cobrar esta obrigação ao Estado, nada mais é do que nossa eterna esperança (minha e também da sociedade como um todo) de ver o Estado mais participativo dos anseios de nossa população. Reconheço sim, a dificuldade que é, esperar mais do que o justo, daqueles que, por justiça social, deveríam ir além dos seus esforços, por um país mais solidário e menos violento.

Congratulo o nobre amigo Nelson José do Nascimento, pelo sempre oportuno tema, que sempre está à superfície de nossas preocupações e também temor, por conta dos nossos jovens e filhos.

Finanlizando esta participação, fica aqui o alerta aos pais, que se aproximem mais de seus filhos e que não percam contato e o afeto entre si, por mais atribulado que seja, as atividades na vida de ambos.
Caro Sr. Nascimento,

Queira um teórico, não queira outro... fato é que a realidade juntas todos estes elementos.

A lógica é a seguinte:
As drogas induzem um estado de coisas que produz crimes embora muitos queiram chamar de violência para mim esta designação é inaceitável... contiando... e no Brasil o direito a legítima defesa é débil pois dele são retirados os instrumentos para exercê-la de forma efetiva se não eficaz, logo um aumento da criminalidade pela liberação das drogas só viria a tornar a situação lastimável do brasileiro em algo beirando analogias ao purgatório de Dante.

Espero que agora o paralelo pareça mais claro pena que as autoridades não se percebam desta conexão tão próxima, mas não fosse assim não existiria o ditado:
"pimenta no .... olho dos outros é refresco"
e aconteça o que acontecer permanece a sabedoria de outro ditado:
"prefiro ser julgado por sete do que carregado por seis".
Prefiram todos...
Sr. Nascimento,

Nunca te afastes de tuas convicção neste sentido e continue tua luta pessoal porque levantares tua voz nesse sentido ela será também a de muitos, sobretudo daqueles que puderam ver o que a droga faz ao indivíduo e à sociedade que flagela.

É por isso que eu já afirmei aqui que enquanto eu não puder dar um tiro na cara daquele que me ameaça e ataca assim como aos meus próximos, seja onde for, eu acho que este atacante não tem que ter acesso livre a maconha, cocaína, extase ou o que for.
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