Parcerias
Esse é o conteúdo alternativo
apoio
Esse é o conteúdo alternativo
Seja um Doador
Contribua e nos ajude a construir uma nova forma de falar sobre segurança pública no Brasil.
Boletim
Receba mensalmente nosso informativo com as notícias e os eventos mais importantes ligados ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública
Artigos
Agenda
Mulheres, polícia e mídia: a morte deve ser anunciada?
Lucio Alves de Barros - Belo Horizonte(MG) - 09/02/2010
Lúcio Alves de Barros**
"A confirmação de que a mulher (Ana Carolina Menezes Assunção, 27 anos) foi vítima de um assassino em série parece não ter surpreendido William Chaves Pereira (30 anos). Ele disse que já havia esse comentário no bairro após os assassinatos de outras mulheres na região" (O Tempo, 04/02/2010).
Tenho levantado aqui e acolá certo debate com poucos amigos acerca das condições objetivas das mulheres. Venho colecionando críticas e acordos. Apesar de feliz, em certos momentos cheguei mesmo a pensar em não discutir mais a temática, haja vista que muitos têm atuado nessa empreitada e com muito mais respaldo institucional e intelectual do que eu. Contudo, há certos fenômenos que não podem passar despercebidos. Acontecimentos que, longe da crítica, parecem "estar tudo bem", Mas, definitivamente, não estão. E, por mais que as autoridades tentem explicar com eufemismos e falas bonitas, a questão é muito séria. Muito séria mesmo e estou me referindo as recentes notícias sobre os crimes sexuais que vem acontecendo em Contagem e Belo Horizonte.
No dia 02 de fevereiro do presente ano poucos não foram surpreendidos com o chefe da Polícia Civil de Minas Gerais, Marco Antônio Monteiro de Castro e o delegado da Divisão de Homicídios do Barreiro, Frederico Razzo Lopes Abelha, comentando em rede nacional a ação de um assassino no Bairro Industrial, na cidade de Contagem e no Barreiro, bairro da cidade de Belo Horizonte. O meliante, a princípio, estaria associado a três homicídios por estrangulamento, todos ocorridos no ano passado (2009).
O pessoal da polícia acredita que pode ser mais do que três mulheres, mas por enquanto eles apontam o assassinato de Ana Carolina Assunção, 27 anos, empresária que foi em abril de 2009 estrangulada no banco traseiro do seu carro com sinais de violência sexual. O ato foi tão cruel que o filho dela - uma criança de 1 ano - foi encontrado adormecido sobre o seu corpo. O segundo caso é o da empresária Maria Helena Aguilar, 48 anos, encontrada morta em setembro de 2009. O terceiro é o da contadora Edna Cordeiro, 35 anos, encontrada nas mesmas condições em novembro de 2009. Como se não bastasse, o recalcitrante tratou não somente de matar, mas com requintes de crueldade violentou as mulheres. Numa clara ação sem controle, ainda deixou o esperma no corpo das vítimas. Algo está muito errado em tudo isso: a Polícia Civil informa que não poderia ter avisado antes a população sob pena de causar pânico e transtornos nos locais que foram encontradas as vítimas. O jornal O Tempo (03/02/2009) chegou mesmo a declarar que a Polícia Civil pediu a não veiculação das informações em janeiro de 2010. Não é preciso ir longe para saber que a Polícia Civil há muito já tinha conhecimento do ocorrido. E no Barreiro, local no qual morava uma das vítimas, muitos já falavam desses acontecimentos. De duas uma: ou (1) a polícia, na tentativa de fazer o seu trabalho, preferiu omitir os fatos e ganhar tempo para prender o meliante ou (2) a questão foi tratada com menos seriedade que merece, sem muita atenção e cuidado. Por lógica, não faz sentido a questão de "não causar pânico na população", haja vista que até as recentes pesquisas do CNT/Sensus (2010) informam que um dos problemas que mais incomodam o brasileiro é a violência/criminalidade (22,9%), mesmo com a onda de queda dos índices nos últimos anos e as notícias de novas formas de policiamento e técnicas de segurança pública.
Desculpe-me as autoridades, mas é difícil convencer alguém para não sentir medo em tais condições. A cultura do medo já está disseminada desde a década de 80. Há pouco tempo, a Revista Veja tratou de mostrar o que acontece em Minas Gerais no campo da segurança pública. Não é possível que numa análise do geoprocessamento nenhum policial se atentou para a possibilidade da ação em série de um estuprador que, por ignorância, ainda deixou o esperma na vítima. Mais que isso, há tempos a SEDES (Secretaria de Estado de Defesa Social) vem trabalhando e revelando aos quatro cantos do planeta o trabalho das AISPs (Áreas Integradas de Segurança Pública), um projeto ambicioso, no qual, na mesma região trabalham a Polícia Civil e a Policia Militar. Ao comandante da Polícia Militar e ao delegado responsável pela área são cobradas metas diante de autoridades responsáveis pela segurança reunidas no modelo IGESP (Integração da Gestão em Segurança Pública), mais ou menos o COMPSTAT norte-americano. Novamente de duas, uma: (1) ou as reuniões não têm nenhuma serventia e são feitas para mostrar informações desejáveis ao secretário de segurança, ou (2) a polícia errou em não perceber e verificar inteligentemente a "onda" de estupros, desaparecimentos e homicídios no local, denominado zona quente de criminalidade. Somente agora, depois do esperma é que as autoridades resolveram colocar a boca no trombone. E não para por aí, a questão fica mais complexa quando existe a suspeita de que uma morte e um desaparecimento podem estar associados aos casos já mencionados. O primeiro é o caso da comerciante Adina Feitor Porto, 34 anos, a qual foi atacada em 27 de janeiro de 2009, no bairro Lindeia na região do Barreiro. O segundo é do desaparecimento da estudante de direito da PUC Betim, Natália Cristina de Almeida Paiva, 27 anos, desaparecida desde outubro de 2009. Em ambos foram encontrados somente os carros das vítimas. Não é preciso ser criminólogo para perceber que existe um padrão de comportamento e uma política de segurança baseada no silêncio da mídia e das autoridades. É neste sentido que seria pedir muito não ter medo. Penso até diferente, é bom que ele exista e que a população passe a cobrar da SEDES a efetiva eficiência dos programas e projetos pró-segurança. Creio ser de suma importância o funcionamento deles: que mais viaturas passem a fazer rondas nos locais, que a rede de "vizinhos protegidos" tenha fundamento, que o Sistema Integrado de Defesa Social realmente seja integrado e que a filosofia da "Polícia Comunitária" não passe de projetos e sonhos. Não é possível que diante de tantos e tantos projetos ainda exista espaço para crimes dessa natureza e que eles, por conseqüência, ainda fiquem sem punição.
Em entrevista aos jornais, as autoridades da Polícia Civil e da Polícia Militar têm confirmado um retrato-falado do suspeito elaborado a partir de informações de uma testemunha. A Polícia Militar colocou a PM2 em ação e está monitorando os suspeitos por 24 horas, o mesmo fez a PC com seus agentes. Nessa clara confusão de cabeças batidas, uma especialista foi convidada para ajudar nas investigações. Todo esforço é válido, todavia é curioso que em meio a tantos projetos não exista pessoas gabaritadas na Polícia Civil ou mesmo a Polícia Militar para atuar em casos como esses.
Um ponto positivo está sendo a uso do DNA, pois um suspeito está nas mãos do Estado que se esforça por cruzar o DNA do meliante com os casos mencionados. É bom ver esse tipo de trabalho, mas ele apareceu somente depois do registro da proximidade dos acontecimentos com as vítimas. A pergunta mais ingênua: "não era possível detectar tais casos pelo famigerado geoprocessamento?", "não foram discutidos tais casos nas reuniões de integração da polícia onde coronéis, majores e delegados cobram metas? Por que não se tornou uma meta verificar a ocorrência dos estupros e desaparecimentos? Alguém resolveu não dizer nada para não causar pânico ou porque se tratava de mulheres mortas em um bairro não tão nobre da capital ou de Contagem?
Muitas interrogações que a mídia e a "sociedade organizada" sequer pensaram em fazer. Provavelmente porque, em primeiro, há muito a "sociedade organizada" realmente está segura entre muros e câmeras e, em segundo, é sabido que a mídia, na maioria dos casos, é pautada pela própria polícia. No momento, as autoridades estão a declarar que após a prisão do suspeito, "nenhum outro caso de abuso sexual foi registrado na região". Ainda bem: não deveria ter nenhum caso com ou sem a prisão do predador. O Brasil é isso: primeiro acontecem os fatos, depois vem as discussões e contam-se os corpos, principalmente no campo minado da segurança pública. Por outro lado, se a polícia estiver errada na prisão do suspeito - e espero sinceramente que não esteja - é óbvio que o predador está à solta esperando a poeira baixar. Este é um caso de relações humanas nas quais o criminoso atua na oportunidade e isto requer tempo e paciência. Uma política de segurança assentada na prevenção se faz urgentemente necessária e obrigatória naquelas localidades.
É um truísmo repetir que a população não pode ficar refém da iminência e ação de um criminoso. E não é aceitável que em pleno Estado de Direito ainda tenhamos a capacidade de esconder informações e não revelar à população o que anda acontecendo. Não vou discutir se deve ou não causar pânico casos mencionados na TV ou nos jornais. O que vale é perguntar que pânico é esse. Em que medida alguém pode afirmar ou confirmar com legitimidade que deixar a mídia mostrar tais eventos uma anomia poderemos ter. Em Minas Gerais tudo é "confidencial", "pode atrapalhar as investigações" ou "é coisa de segredo de Estado", como se em uma guerra estivéssemos. Solicitar informação aos órgãos de segurança de Minas Gerais requer força de vontade para enfrentar uma burocracia sem limites. Estamos longe de ver muitas das informações estampados na internet ou nos jornais. Não sei o porquê, mas Otto Lara Resende (1902-1992), um jornalista mineiro de São João Del-Rei, disse que o "o mineiro só é solidário no câncer". Não exagero ao afirmar que "nem no câncer", pois acontecimentos sérios como os que estão ocorrendo no Barreiro e Contagem não pararam de saltar nas bocas miúdas e a população ainda se cala na cordialidade ao invés de estar ajudando e usando os próprios aparelhos da segurança pública como o "Disque Denúncia" (181) ou o "190". Podem culpar o descrédito que a polícia tem com boa parte da população, mas não vejo outra forma se não continuar confiando nela e torcendo para que a prevenção passe a funcionar. É necessário que o dinheiro público alocado em projetos de segurança dê resultados. Finalmente, gostaria de sugerir um novo projeto, na esteira do "Fica Vivo". Nada de novo, somente uma espécie de "Fica Vivo para Mulheres - FVM". Um projetinho pequeno para atender mulheres violentadas, estupradas, espancadas, parentes de desaparecidos, vítimas de predadores sociais e todas àquelas que temem por sua vida e dos seus. O fato é simples, é porque tenho mulheres em minha vida e amo tanto elas quanto à todas que se deram o trabalho de ler o meu texto.
####
** Lúcio Alves de Barros -mestre em sociologia e doutor em Ciências Humanas pela UFMG. Organizador do livro, "Mulher, política e sociedade". Brumadinho/Belo Horizonte: Ed. ASA, 2009.
"A confirmação de que a mulher (Ana Carolina Menezes Assunção, 27 anos) foi vítima de um assassino em série parece não ter surpreendido William Chaves Pereira (30 anos). Ele disse que já havia esse comentário no bairro após os assassinatos de outras mulheres na região" (O Tempo, 04/02/2010).
Tenho levantado aqui e acolá certo debate com poucos amigos acerca das condições objetivas das mulheres. Venho colecionando críticas e acordos. Apesar de feliz, em certos momentos cheguei mesmo a pensar em não discutir mais a temática, haja vista que muitos têm atuado nessa empreitada e com muito mais respaldo institucional e intelectual do que eu. Contudo, há certos fenômenos que não podem passar despercebidos. Acontecimentos que, longe da crítica, parecem "estar tudo bem", Mas, definitivamente, não estão. E, por mais que as autoridades tentem explicar com eufemismos e falas bonitas, a questão é muito séria. Muito séria mesmo e estou me referindo as recentes notícias sobre os crimes sexuais que vem acontecendo em Contagem e Belo Horizonte.
No dia 02 de fevereiro do presente ano poucos não foram surpreendidos com o chefe da Polícia Civil de Minas Gerais, Marco Antônio Monteiro de Castro e o delegado da Divisão de Homicídios do Barreiro, Frederico Razzo Lopes Abelha, comentando em rede nacional a ação de um assassino no Bairro Industrial, na cidade de Contagem e no Barreiro, bairro da cidade de Belo Horizonte. O meliante, a princípio, estaria associado a três homicídios por estrangulamento, todos ocorridos no ano passado (2009).
O pessoal da polícia acredita que pode ser mais do que três mulheres, mas por enquanto eles apontam o assassinato de Ana Carolina Assunção, 27 anos, empresária que foi em abril de 2009 estrangulada no banco traseiro do seu carro com sinais de violência sexual. O ato foi tão cruel que o filho dela - uma criança de 1 ano - foi encontrado adormecido sobre o seu corpo. O segundo caso é o da empresária Maria Helena Aguilar, 48 anos, encontrada morta em setembro de 2009. O terceiro é o da contadora Edna Cordeiro, 35 anos, encontrada nas mesmas condições em novembro de 2009. Como se não bastasse, o recalcitrante tratou não somente de matar, mas com requintes de crueldade violentou as mulheres. Numa clara ação sem controle, ainda deixou o esperma no corpo das vítimas. Algo está muito errado em tudo isso: a Polícia Civil informa que não poderia ter avisado antes a população sob pena de causar pânico e transtornos nos locais que foram encontradas as vítimas. O jornal O Tempo (03/02/2009) chegou mesmo a declarar que a Polícia Civil pediu a não veiculação das informações em janeiro de 2010. Não é preciso ir longe para saber que a Polícia Civil há muito já tinha conhecimento do ocorrido. E no Barreiro, local no qual morava uma das vítimas, muitos já falavam desses acontecimentos. De duas uma: ou (1) a polícia, na tentativa de fazer o seu trabalho, preferiu omitir os fatos e ganhar tempo para prender o meliante ou (2) a questão foi tratada com menos seriedade que merece, sem muita atenção e cuidado. Por lógica, não faz sentido a questão de "não causar pânico na população", haja vista que até as recentes pesquisas do CNT/Sensus (2010) informam que um dos problemas que mais incomodam o brasileiro é a violência/criminalidade (22,9%), mesmo com a onda de queda dos índices nos últimos anos e as notícias de novas formas de policiamento e técnicas de segurança pública.
Desculpe-me as autoridades, mas é difícil convencer alguém para não sentir medo em tais condições. A cultura do medo já está disseminada desde a década de 80. Há pouco tempo, a Revista Veja tratou de mostrar o que acontece em Minas Gerais no campo da segurança pública. Não é possível que numa análise do geoprocessamento nenhum policial se atentou para a possibilidade da ação em série de um estuprador que, por ignorância, ainda deixou o esperma na vítima. Mais que isso, há tempos a SEDES (Secretaria de Estado de Defesa Social) vem trabalhando e revelando aos quatro cantos do planeta o trabalho das AISPs (Áreas Integradas de Segurança Pública), um projeto ambicioso, no qual, na mesma região trabalham a Polícia Civil e a Policia Militar. Ao comandante da Polícia Militar e ao delegado responsável pela área são cobradas metas diante de autoridades responsáveis pela segurança reunidas no modelo IGESP (Integração da Gestão em Segurança Pública), mais ou menos o COMPSTAT norte-americano. Novamente de duas, uma: (1) ou as reuniões não têm nenhuma serventia e são feitas para mostrar informações desejáveis ao secretário de segurança, ou (2) a polícia errou em não perceber e verificar inteligentemente a "onda" de estupros, desaparecimentos e homicídios no local, denominado zona quente de criminalidade. Somente agora, depois do esperma é que as autoridades resolveram colocar a boca no trombone. E não para por aí, a questão fica mais complexa quando existe a suspeita de que uma morte e um desaparecimento podem estar associados aos casos já mencionados. O primeiro é o caso da comerciante Adina Feitor Porto, 34 anos, a qual foi atacada em 27 de janeiro de 2009, no bairro Lindeia na região do Barreiro. O segundo é do desaparecimento da estudante de direito da PUC Betim, Natália Cristina de Almeida Paiva, 27 anos, desaparecida desde outubro de 2009. Em ambos foram encontrados somente os carros das vítimas. Não é preciso ser criminólogo para perceber que existe um padrão de comportamento e uma política de segurança baseada no silêncio da mídia e das autoridades. É neste sentido que seria pedir muito não ter medo. Penso até diferente, é bom que ele exista e que a população passe a cobrar da SEDES a efetiva eficiência dos programas e projetos pró-segurança. Creio ser de suma importância o funcionamento deles: que mais viaturas passem a fazer rondas nos locais, que a rede de "vizinhos protegidos" tenha fundamento, que o Sistema Integrado de Defesa Social realmente seja integrado e que a filosofia da "Polícia Comunitária" não passe de projetos e sonhos. Não é possível que diante de tantos e tantos projetos ainda exista espaço para crimes dessa natureza e que eles, por conseqüência, ainda fiquem sem punição.
Em entrevista aos jornais, as autoridades da Polícia Civil e da Polícia Militar têm confirmado um retrato-falado do suspeito elaborado a partir de informações de uma testemunha. A Polícia Militar colocou a PM2 em ação e está monitorando os suspeitos por 24 horas, o mesmo fez a PC com seus agentes. Nessa clara confusão de cabeças batidas, uma especialista foi convidada para ajudar nas investigações. Todo esforço é válido, todavia é curioso que em meio a tantos projetos não exista pessoas gabaritadas na Polícia Civil ou mesmo a Polícia Militar para atuar em casos como esses.
Um ponto positivo está sendo a uso do DNA, pois um suspeito está nas mãos do Estado que se esforça por cruzar o DNA do meliante com os casos mencionados. É bom ver esse tipo de trabalho, mas ele apareceu somente depois do registro da proximidade dos acontecimentos com as vítimas. A pergunta mais ingênua: "não era possível detectar tais casos pelo famigerado geoprocessamento?", "não foram discutidos tais casos nas reuniões de integração da polícia onde coronéis, majores e delegados cobram metas? Por que não se tornou uma meta verificar a ocorrência dos estupros e desaparecimentos? Alguém resolveu não dizer nada para não causar pânico ou porque se tratava de mulheres mortas em um bairro não tão nobre da capital ou de Contagem?
Muitas interrogações que a mídia e a "sociedade organizada" sequer pensaram em fazer. Provavelmente porque, em primeiro, há muito a "sociedade organizada" realmente está segura entre muros e câmeras e, em segundo, é sabido que a mídia, na maioria dos casos, é pautada pela própria polícia. No momento, as autoridades estão a declarar que após a prisão do suspeito, "nenhum outro caso de abuso sexual foi registrado na região". Ainda bem: não deveria ter nenhum caso com ou sem a prisão do predador. O Brasil é isso: primeiro acontecem os fatos, depois vem as discussões e contam-se os corpos, principalmente no campo minado da segurança pública. Por outro lado, se a polícia estiver errada na prisão do suspeito - e espero sinceramente que não esteja - é óbvio que o predador está à solta esperando a poeira baixar. Este é um caso de relações humanas nas quais o criminoso atua na oportunidade e isto requer tempo e paciência. Uma política de segurança assentada na prevenção se faz urgentemente necessária e obrigatória naquelas localidades.
É um truísmo repetir que a população não pode ficar refém da iminência e ação de um criminoso. E não é aceitável que em pleno Estado de Direito ainda tenhamos a capacidade de esconder informações e não revelar à população o que anda acontecendo. Não vou discutir se deve ou não causar pânico casos mencionados na TV ou nos jornais. O que vale é perguntar que pânico é esse. Em que medida alguém pode afirmar ou confirmar com legitimidade que deixar a mídia mostrar tais eventos uma anomia poderemos ter. Em Minas Gerais tudo é "confidencial", "pode atrapalhar as investigações" ou "é coisa de segredo de Estado", como se em uma guerra estivéssemos. Solicitar informação aos órgãos de segurança de Minas Gerais requer força de vontade para enfrentar uma burocracia sem limites. Estamos longe de ver muitas das informações estampados na internet ou nos jornais. Não sei o porquê, mas Otto Lara Resende (1902-1992), um jornalista mineiro de São João Del-Rei, disse que o "o mineiro só é solidário no câncer". Não exagero ao afirmar que "nem no câncer", pois acontecimentos sérios como os que estão ocorrendo no Barreiro e Contagem não pararam de saltar nas bocas miúdas e a população ainda se cala na cordialidade ao invés de estar ajudando e usando os próprios aparelhos da segurança pública como o "Disque Denúncia" (181) ou o "190". Podem culpar o descrédito que a polícia tem com boa parte da população, mas não vejo outra forma se não continuar confiando nela e torcendo para que a prevenção passe a funcionar. É necessário que o dinheiro público alocado em projetos de segurança dê resultados. Finalmente, gostaria de sugerir um novo projeto, na esteira do "Fica Vivo". Nada de novo, somente uma espécie de "Fica Vivo para Mulheres - FVM". Um projetinho pequeno para atender mulheres violentadas, estupradas, espancadas, parentes de desaparecidos, vítimas de predadores sociais e todas àquelas que temem por sua vida e dos seus. O fato é simples, é porque tenho mulheres em minha vida e amo tanto elas quanto à todas que se deram o trabalho de ler o meu texto.
####
** Lúcio Alves de Barros -mestre em sociologia e doutor em Ciências Humanas pela UFMG. Organizador do livro, "Mulher, política e sociedade". Brumadinho/Belo Horizonte: Ed. ASA, 2009.
- Por favor, se logue ou se registre para poder enviar comentários
para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Fórum de Segurança Pública, e adicione seus comentários em seguida.

Apenas é imperativo fazer uma observação. Enquanto pessoas de seu quilate permanecerem apenas no campo da indignação -não vai a menor admoestação, porque também me incluo aí -, infelizmente não teremos o avanço pretendido e necessário, face o desrespeito demonstrado pelo estado/polícia no desempenho de sua atividade típica de prover segurança pública.
Casos, como os apresentados em seu artigo, são por demais corriqueiros Brasil afora. Certo é que, habitual e ordinariamente, em nome da desídia e da incompetência, imputam-lhes falsos axiomas, como "confidencialidade", "comoção social desnecessária", "desastre ao curso das investigações" etc. Tudo com o único e exclusivo mote de encobrir fatuidades frívolas e inabilidades consumadas.
Neste ponto, meu amigo, quero deixar claro que tais assertivas têm por base quase trinta anos de efetivo exercício na atividade policial. Portanto, presumo humildemente estar habilitado a apontar vícios conceituais insanáveis na atual estrutura e poder expender análises que corroboram com seu pensamento.
Por fim, não podemos e não devemos ficar somente no campo defensivo da indignação e da denúncia. Temos razões e oportunidades para irmos mais além...
Sua forma de agir deixa rastro, dada a sua preferência por mulheres de perfis semelhantes, entre eles, o fato de serem mulheres cultas, como empresárias ou profissionais liberais e em cidades pequenas não deve haver tantas, com essas qualificações.
Sua escolha não é aleatória. Provavelmente deve estar escolhendo sua próxima vítima e para isso, deve estar bem arrumado e se misturando entre as pessoas, para observar os hábitos de sua provável vítima, como locais onde almoça, onde estaciona o carro, onde faz suas compras, etc.
Mulheres (vitimas) com esse perfil, deve oferecer mais resistência, o que só excita ainda mais o aspecto doentio do meliante.
Mulheres liberais e profissionais (da região onde ocorreram as mortes), com perfis semelhantes à das vitimas, poderiam ser cadastradas na delegacia local, para ser destacados alguns profissionais de segurança, para fazer campana em seus locais de trabalho, desfarçados como clientes.
Acredito que a polícia poderia requerer judicialmente, a instalação de rastreadores (GPS) nos veículos dessas possíveis vítimas, para rápida ação de rastreamento da polícia, talvês em tempo hábil para se evitar o assassinato. Mudar ou alterar o roteiro de volta pra casa, pode ajudar. Prestar mais atenção, se uma mesma pessoa está presente na maioria dos lugares que frequenta.
Parece paranóia, mas é pura prevenção. O que não se pode fazer é ficar parado esperando o cara atacar novamente.
Quando um estuprador andou matando mulheres dentistas em são paulo, na móoca (coisa de uns 15 anos atrás), tão logo saiu o retrato falado do meliante, tratei logo de tirar mais 100 xerox daquela cara horrível e imediatamente espalhei por todo o bairro. Resultado: Ele parou de atuar na Moóca e foi para o ABC, segundo informações que obtive na época.
Detalhe: Minha esposa é dentista.
Será que até com a ajuda do assassino, a gente vai ficar passivo e esperar pela próxima vítima ?
Abraços e PAZ
Lúcio
Foi bom o texto pois bem aponta a condição da mulher, mas não fala dos velhos e das crianças que também são as vítimas preferidas da criminalidade sendo que cabe ressaltar que esta a ninguém poupa, por isso que este Estatuto do Desarmamento é conhecido como Estaburro... as pessoa ficam privadas de meios eficientes de autodefesa, sendo que a legítima defesa é um princípio protegido por nossa constituição e logo os meios para garanti-lo deveriam então ser estimulados e protegidos e não aviltados como o faz o Estaburro.
A população frente a esses casos vai cada dia mais ficar mais consciente da excrescência desta lei tirânica e vai cada vez mais a combater exigindo uma lei legítima, um lei que seja aprovada por um congresso nacional que não esteja enterrado até o pescoço em corrupções e mensalões como fora o congresso responsável pela aprovação desta lei.
No plebiscito que rezava sobre o artigo 35 do estatudo o povo brasileiro solenemente não apenas demonstrou repúdio a este artigo com 63% dos votos como também demonstrou o repúdio que tem para com todo o estatuto em si, tivéssemos como votar sim ou não para cada um de seus artigos veríamos o quando esta lei totalitária esta em contradição com a vontade do povo brasileiro. Ademais temos que observar também as condições em que se realizou o plebiscito com uma edionda campanha de propaganda mentirosa e falsificação de dados, coisa que perdura até hoje.
A polícia não pode estar em todos os lugares e não pode proteger a todos e especialmente as mulheres, os idosos e os pais de família tem que lutar para que seu direito a posse e porte de armas de fogo seja garantido de fato por uma lei justa e sintonizada com seus anseios e não com esta porcaria que a esquerda totalitária vive louvando e enchendo de méritos.
Leiam o artigo: http://www.washingtontimes.com/news/2010/jan/21/guns-decrease-murder-rates/
É o que a esquerda odeia ler, a verdade que sobretudo vai contra suas idéia totalitárias.
Enquanto isso a polícia nos dando uma parca segurança e nós reféns do crime e da polícia que esta incapaz.
A polícia esta armada e se arma fosse ruim deveríamos então exigir que a polícia se desarme, não queremos uma polícia ruim, as armas são tão boas para a polícia como são para as pessoas de bem e esta é sua destinação, proteger as pessoas de bem no caso de grave ameaça a sua propriedade e sua vida e de terceiros.
Enquanto não formos cidadão de fato e tivermos o direito a nos defendermos com meios efetivos, leia-se armas de fogo, seremos vítimas e as mulheres neste processo serão as maiores e mais freqüêntes delas.
Sociedade armada e mais polícia é o caminho o resto é demagogia como a história já bem registra.
Por estas - se acaso o teor do texto arranhou sua altivez - renovo pedido de desculpas ou, senão, por irremediável, desconsidere o que escrevi.
Abraços e PAZ
Lúcio
Ressalto também o acerto do Doutor Lúcio em esboçar a idéia de co-responsabilidades no caso de uma possível falha dos órgãos públicos na abordagem desse caso, que infelizmente vem sendo imputada exclusivamente à Polícia Civil. Ora, se houveram erros, não foram eles praticados apenas pela Polícia Civil, mas sim por todas as Instituições envolvidas no Sistema de Justiça Criminal.
Quanto à critica do autor, relativa ao sigilo das investigações até o começo do último mês, acredito que a Autoridade Policial que presidia as investigações agiu acertadamente, pois a divulgação da notícia precipitadamente poderia alarmar a população, afugentar os suspeitos e até mesmo "criar maníacos", indivíduos que poderiam praticar crimes e, sabedores das possíveis características do "maníaco", imputar as infrações àquele.