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Eu, a PolÃcia
Nelson José S. Nascimento - Aracaju(SE) - 17/02/2010
Nasci junto com a civilização. Nos primórdios dos primeiros aglomerados humanos eu já estava lá, presente, desvelando-me pela manutenção da ordem; prestando a necessária proteção e tranqüilidade, sem as quais seria impossÃvel qualquer desenvolvimento material ao rebanho de almas que se formava naquele momento.
Sou irmã gêmea da Religião. Juntas, em nome da paz, impomos certa moralidade aos desregramentos do espÃrito e reprimimos os abusos da carne. Complementamo-nos. Os ensinamentos divinos daquela servem-me de base a lastrear o árduo exercÃcio do ofÃcio que me foi instituÃdo.
Tenho orgulho de descender diretamente da Moral e dos bons costumes, elementos em constante sedimentação pelo atrito diário do povo, determinados pela marcha constante das aspirações e pelo desejo incontido de progresso.
Por este motivo, meu nome deriva do vocábulo grego politeia e do latim politia. Ambos de igual significação: governo, administração da cidade. A mesma raiz etimológica (polis = cidade) do meu batismo, também dá origem à palavra polÃtica, cuja definição é por todos conhecida. Desse modo, somos primas em primeiro grau.
A mitologia greco-romana não me atribuiu representante especÃfico no Olimpo - como fez com o comércio e a medicina, por exemplo. Porém, sou devota altiva e ardorosa das qualidades conceituais da deusa Têmis -e de suas filhas Eirene (Paz), Eunomia (Disciplina) e Diké (Justiça)-, além de receber estÃmulos do deus Prometeu.
Na deusa Têmis e na sua prole com Zeus, busco inspiração para agir acertadamente, respeitando a oscilação dos pratos da balança e a fecundidade da cornucópia. Em Prometeu, procuro imitar o exemplo de auxÃlio despojado a todos os homens, mesmo tendo por retribuição provavelmente o mesmo castigo eterno.
Durante minha trajetória, por muitas vezes e em épocas e nações distintas, déspotas desprovidos de legitimação e, invariavelmente, odiados por seu povo, ataram-me a engonços e manipularam largamente o meu ofÃcio, açulando-me contra a população em genuÃna revolta, para assegurar-lhes o trono ou a perpetuação do poder arbitrário.
Nunca me revoltei isoladamente por causa disso, mas fui sediciosa em diversos outros levantes, sempre à braços com a sociedade vilipendiada.
Apesar de ter deixado marcas profundas, nada disso, entretanto, conseguiu apagar o carinho e a candura que o povo guarda por mim em seu coração. Nasci de seu ventre com a missão de protegê-lo como uma mãe deve guardar o filho dileto. Sou filha dele, mas também ele é meu filho. A um só tempo, somos mãe e filho, filha e pai. Esta relação é indestrutÃvel!
Por conta desta simbiose filosófica, não há nação no mundo, por mais avançada técnica, espiritual, econômica e democraticamente, que prescinda dos meus serviços. Em todos os estados e regimes eu tenho destaque e assento. Concomitantemente, sou querida e odiada -dependendo da situação e da ótica do protagonista. Mas, inconteste, sou tão necessária ao bem estar social quanto o sorriso da criança o é para a mãe extremada.
Costumo comparar-me ao médico epidemiologista, que tem por mister desenvolver permanentemente ações preventivas de contenção ao aparecimento de surtos inesperados de doenças ou de agravamento de endemias pré-existentes. Em caso de grave disseminação generalizada, ele está obrigado a arregaçar as mangas e por mãos à obra, em estreito contato com infectados, sem poder dar-se ao luxo de contrair a moléstia.
Assim sou eu. Está claro que, na troca de alguns designativos pertinentes a cada caso, identifico-me perfeitamente neste paralelismo. Apenas faço uma pequena observação: para mim, além de o contágio significar danos irreversÃveis de funestas conseqüências à saúde do tecido social, resulta também em grande descrédito popular, extensivo a todo o meu corpo.
Tenho inominável sentimento de dignidade pela qualidade dos meus quadros espalhados mundo afora. Neles está abrigada imensa legião de filhos amados. São mulheres e homens honestos, trabalhadores, honrados, civilizados, cultos, prestativos, cientes da magnitude de suas obrigações e que, sobretudo, se dão, espontânea e diariamente, sem pedir nada em troca por este desprendimento.
Contudo, para minha maior tristeza e infelicidade, acoita também infinitésima minoria de ladrões contumazes, viciados empedernidos, assaltantes repugnantes e irascÃveis irretratáveis, enfim, criminosos de vários matizes que macula a minha reputação e enodoa a minha insÃgnia. Certamente, estes não são meus filhos!
Por certo, nunca serão alçados ao panteão dos meus heróis e, muito menos, convidados à minha mesa. Lanço sobre eles o labéu eterno da infâmia e da abjeção. Meus filhos amados verdadeiros, sem contemplações ou sentimentos corporativistas, hão de lhes repugnar e obstinar em pô-los à ferros em merecido lugar.
Causa-me asco o fato de qualquer bandido ostentar minha insÃgnia. Aquele que assim o faz, apresenta-se aos meus olhos como ser de caráter indefinÃvel, mais desprezÃvel e pernóstico que o meliante que abertamente se intitula como tal. Revela-se menos audaz que o mais tÃmido dos delinqüentes. Envergonha profundamente até mesmo a classe dos malfeitores, por não ter coragem de definir-se a uma ou outra coisa; escuda-se no meu brasão e refugia-se - como um miserável que é - à sombra da minha nobre corporação.
Quando age isoladamente ou em pequeno bando para cometer atividades à revelia da minha sã e elevada doutrina, sua impertinência não me pede conselhos, não me consulta. Todavia, quando seus atos espúrios são revelados, manchando inexoravelmente todo meu quadro, acovarda-se acocorado e, despudoradamente, vem me pedir apoio e abrigo. Não os terá... Certamente, este não é meu filho! Apunhala-me pelas costas, como um salteador barato.
Minha eterna luta para resgatar e enobrecer meu nome não pode compactuar com tais comportamentos.
Por sinal, não vai aà nenhum indÃcio de arrogância ou impetuosidade. Simplesmente, apreço ao pensamento de um grande senador desta República, que ensina: "combater a criminalidade não significa, necessariamente, ter ódio ao criminoso". Mas, para este desrespeito não pode haver lugar para indulgências. Principalmente com quem deliberadamente trai o próprio juramento de defender a sociedade, até com o sacrifÃcio da própria vida.
Entrementes, apesar de todos os percalços, tenho alcançado mais honra e admiração que desgosto e angustia. Ademais, gradativamente, tenho atraÃdo para minhas fileiras aqueles que antes se persignavam à mera menção de meu nome. Tenho consciência que ainda falta muito para o ideal, porém, a cada dia, meus quadros estão mais bem preparados que outrora. Em alguns casos, o reconhecimento popular tem alcançado nÃveis substanciais, demonstrados, mormente, na contrapartida remuneratória em certas praças. Minha heráldica, assim como nomenclaturas que me impuseram, tem recebido tratamento digno de grife importante.
Então, posso afirmar, não havendo solavancos e sobressaltos em médio prazo, a tendência da minha qualidade doravante será representada por uma linha em ascensão.
Por estas, despeço-me deixando registrado que, no exato momento em que você lê este texto, meus filhos e filhas, espalhados por todo globo, seja no ar, na terra, em rios ou no mar; seja sob sol, chuva, neve, calor ou frio, estão zelando para a manutenção da sua tranqüilidade e sossego; do seu estilo de vida e pela continuidade do regime de governo que você escolheu e atualmente se submete. Portanto, peço-lhe humildemente: não ponha toda culpa pelos infaustos apenas em mim ou nos meus filhos amados.
Saiba mais em http://www.nelsonjnascimento.blogspot.com
Sou irmã gêmea da Religião. Juntas, em nome da paz, impomos certa moralidade aos desregramentos do espÃrito e reprimimos os abusos da carne. Complementamo-nos. Os ensinamentos divinos daquela servem-me de base a lastrear o árduo exercÃcio do ofÃcio que me foi instituÃdo.
Tenho orgulho de descender diretamente da Moral e dos bons costumes, elementos em constante sedimentação pelo atrito diário do povo, determinados pela marcha constante das aspirações e pelo desejo incontido de progresso.
Por este motivo, meu nome deriva do vocábulo grego politeia e do latim politia. Ambos de igual significação: governo, administração da cidade. A mesma raiz etimológica (polis = cidade) do meu batismo, também dá origem à palavra polÃtica, cuja definição é por todos conhecida. Desse modo, somos primas em primeiro grau.
A mitologia greco-romana não me atribuiu representante especÃfico no Olimpo - como fez com o comércio e a medicina, por exemplo. Porém, sou devota altiva e ardorosa das qualidades conceituais da deusa Têmis -e de suas filhas Eirene (Paz), Eunomia (Disciplina) e Diké (Justiça)-, além de receber estÃmulos do deus Prometeu.
Na deusa Têmis e na sua prole com Zeus, busco inspiração para agir acertadamente, respeitando a oscilação dos pratos da balança e a fecundidade da cornucópia. Em Prometeu, procuro imitar o exemplo de auxÃlio despojado a todos os homens, mesmo tendo por retribuição provavelmente o mesmo castigo eterno.
Durante minha trajetória, por muitas vezes e em épocas e nações distintas, déspotas desprovidos de legitimação e, invariavelmente, odiados por seu povo, ataram-me a engonços e manipularam largamente o meu ofÃcio, açulando-me contra a população em genuÃna revolta, para assegurar-lhes o trono ou a perpetuação do poder arbitrário.
Nunca me revoltei isoladamente por causa disso, mas fui sediciosa em diversos outros levantes, sempre à braços com a sociedade vilipendiada.
Apesar de ter deixado marcas profundas, nada disso, entretanto, conseguiu apagar o carinho e a candura que o povo guarda por mim em seu coração. Nasci de seu ventre com a missão de protegê-lo como uma mãe deve guardar o filho dileto. Sou filha dele, mas também ele é meu filho. A um só tempo, somos mãe e filho, filha e pai. Esta relação é indestrutÃvel!
Por conta desta simbiose filosófica, não há nação no mundo, por mais avançada técnica, espiritual, econômica e democraticamente, que prescinda dos meus serviços. Em todos os estados e regimes eu tenho destaque e assento. Concomitantemente, sou querida e odiada -dependendo da situação e da ótica do protagonista. Mas, inconteste, sou tão necessária ao bem estar social quanto o sorriso da criança o é para a mãe extremada.
Costumo comparar-me ao médico epidemiologista, que tem por mister desenvolver permanentemente ações preventivas de contenção ao aparecimento de surtos inesperados de doenças ou de agravamento de endemias pré-existentes. Em caso de grave disseminação generalizada, ele está obrigado a arregaçar as mangas e por mãos à obra, em estreito contato com infectados, sem poder dar-se ao luxo de contrair a moléstia.
Assim sou eu. Está claro que, na troca de alguns designativos pertinentes a cada caso, identifico-me perfeitamente neste paralelismo. Apenas faço uma pequena observação: para mim, além de o contágio significar danos irreversÃveis de funestas conseqüências à saúde do tecido social, resulta também em grande descrédito popular, extensivo a todo o meu corpo.
Tenho inominável sentimento de dignidade pela qualidade dos meus quadros espalhados mundo afora. Neles está abrigada imensa legião de filhos amados. São mulheres e homens honestos, trabalhadores, honrados, civilizados, cultos, prestativos, cientes da magnitude de suas obrigações e que, sobretudo, se dão, espontânea e diariamente, sem pedir nada em troca por este desprendimento.
Contudo, para minha maior tristeza e infelicidade, acoita também infinitésima minoria de ladrões contumazes, viciados empedernidos, assaltantes repugnantes e irascÃveis irretratáveis, enfim, criminosos de vários matizes que macula a minha reputação e enodoa a minha insÃgnia. Certamente, estes não são meus filhos!
Por certo, nunca serão alçados ao panteão dos meus heróis e, muito menos, convidados à minha mesa. Lanço sobre eles o labéu eterno da infâmia e da abjeção. Meus filhos amados verdadeiros, sem contemplações ou sentimentos corporativistas, hão de lhes repugnar e obstinar em pô-los à ferros em merecido lugar.
Causa-me asco o fato de qualquer bandido ostentar minha insÃgnia. Aquele que assim o faz, apresenta-se aos meus olhos como ser de caráter indefinÃvel, mais desprezÃvel e pernóstico que o meliante que abertamente se intitula como tal. Revela-se menos audaz que o mais tÃmido dos delinqüentes. Envergonha profundamente até mesmo a classe dos malfeitores, por não ter coragem de definir-se a uma ou outra coisa; escuda-se no meu brasão e refugia-se - como um miserável que é - à sombra da minha nobre corporação.
Quando age isoladamente ou em pequeno bando para cometer atividades à revelia da minha sã e elevada doutrina, sua impertinência não me pede conselhos, não me consulta. Todavia, quando seus atos espúrios são revelados, manchando inexoravelmente todo meu quadro, acovarda-se acocorado e, despudoradamente, vem me pedir apoio e abrigo. Não os terá... Certamente, este não é meu filho! Apunhala-me pelas costas, como um salteador barato.
Minha eterna luta para resgatar e enobrecer meu nome não pode compactuar com tais comportamentos.
Por sinal, não vai aà nenhum indÃcio de arrogância ou impetuosidade. Simplesmente, apreço ao pensamento de um grande senador desta República, que ensina: "combater a criminalidade não significa, necessariamente, ter ódio ao criminoso". Mas, para este desrespeito não pode haver lugar para indulgências. Principalmente com quem deliberadamente trai o próprio juramento de defender a sociedade, até com o sacrifÃcio da própria vida.
Entrementes, apesar de todos os percalços, tenho alcançado mais honra e admiração que desgosto e angustia. Ademais, gradativamente, tenho atraÃdo para minhas fileiras aqueles que antes se persignavam à mera menção de meu nome. Tenho consciência que ainda falta muito para o ideal, porém, a cada dia, meus quadros estão mais bem preparados que outrora. Em alguns casos, o reconhecimento popular tem alcançado nÃveis substanciais, demonstrados, mormente, na contrapartida remuneratória em certas praças. Minha heráldica, assim como nomenclaturas que me impuseram, tem recebido tratamento digno de grife importante.
Então, posso afirmar, não havendo solavancos e sobressaltos em médio prazo, a tendência da minha qualidade doravante será representada por uma linha em ascensão.
Por estas, despeço-me deixando registrado que, no exato momento em que você lê este texto, meus filhos e filhas, espalhados por todo globo, seja no ar, na terra, em rios ou no mar; seja sob sol, chuva, neve, calor ou frio, estão zelando para a manutenção da sua tranqüilidade e sossego; do seu estilo de vida e pela continuidade do regime de governo que você escolheu e atualmente se submete. Portanto, peço-lhe humildemente: não ponha toda culpa pelos infaustos apenas em mim ou nos meus filhos amados.
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