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Livro promove reflexão sobre gestão integrada da segurança
Comunidade Segura - Rio de Janeiro(RJ) - 19/02/2010
Por Débora Zampiér

* Texto produzido pela parceria entre o portal Comunidade Segura e o Fórum Brasileiro de Segrança Pública

"A grande diferença que sentimos não é relativa ao que mudou, mas que a mudança começou". A frase, de autoria do ministro da Justiça, Tarso Genro, refere-se aos efeitos da criação dos Gabinetes de Gestão Integrada de Segurança Pública (GGI) para um efetivo controle da violência e da criminalidade no Brasil. A declaração foi dada durante o lançamento do livro "Gabinetes de Gestão Integrada em Segurança Pública: coletânea 2003-2009", realizado no dia 8 de fevereiro, no prédio do Ministério da Justiça, em Brasília.

A obra reúne a experiência dos seis anos de existência dos GGIs, e está dividida em quatro partes. A primeira fala sobre a criação e a implantação dos gabinetes; a segunda traz os Anais do Fórum Nacional de Gabinetes de Gestão Integrada, realizado em 2005. O terceiro capítulo é fruto do Fórum Internacional de Gabinetes de Gestão Integrada, ocorrido em 2007, com foco na segurança pública na faixa de fronteiras. A última parte reúne artigos de especialistas em segurança pública e nomes fundamentais para o advento e desenvolvimento dos GGIs no Brasil, como o ex e o atual secretários de Segurança Pública, Luiz Eduardo Soares e Ricardo Balestreri.

Em seu discurso, o secretário Nacional de Segurança substituto, Alexandre Aragon, destacou que o livro já nasce como uma orientação em termos de segurança pública. "O lançamento dessa coletânea é a consolidação dos 40 anos de erros e acertos que tivemos em segurança pública. Essas experiências não poderiam ser deixadas para trás em respeito àqueles que se dedicaram a novas formas de pensar essa temática e às próximas gerações", disse Aragon.

O ministro Tarso Genro justificou sua presença no evento pelo fato de valorizar a organização dos GGIs como verdadeira precondição para a implementação do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci). "Os gabinetes mostram a capacidade que o Estado brasileiro tem de estabelecer relações virtuosas entre os entes da União, particularmente nessa questão ainda não resolvida na democracia brasileira que é uma segurança verdadeiramente eficaz e cidadã", disse o ministro.

Contexto

Os GGIs surgiram em 2003 fruto da necessidade de um novo posicionamento do governo frente às questões relativas à segurança pública. "Há 20 anos, queríamos que as políticas de governo fossem transformadas em políticas de Estado, mas nada acontecia. A segurança pública brasileira era pensada de quatro em quatro anos, o que impedia a implantação de políticas efetivas e duradouras", lembra Aragon.

Segundo o secretário, percebeu-se que, para estabelecer uma política de Estado, e não de governo, todos os envolvidos com a segurança pública tinham que sentar e discutir, de igual para igual. "É muito confortável para aquele que não participa fazer a critica", ressalta Aragon. Foi assim que os gabinetes surgiram como fóruns de caráter permanente, deliberativo, executivo e sem hierarquia entre as instituições participantes. "Em suma, a palavra que impera é o consenso", define Wilkerson Sandes, coordenador nacional dos GGIs.

Os gabinetes são divididos entre estaduais (GGIE) e municipais (GGIM) e nenhum dos dois conta com a participação da sociedade civil, dada a natureza não consultiva dos órgãos. Os estaduais estão presentes nos 26 estados e no Distrito Federal, mas funcionam de forma heterogênea devido às particularidades políticas e culturais de cada unidade da federação.

Os GGIEs reúnem dirigentes de instituições das três esferas de governo, como chefes das polícias estaduais e federais, a Secretaria de Segurança e de assuntos penitenciários, a Perícia, um representante estadual das guardas civis municipais, as Forças Armadas, a Justiça, o Ministério Público e a Defensoria Pública. "Eles são membros natos porque o que decidirem ali vai para a prática do ponto de vista da instituição", explica Wilkerson.

Já os gabinetes municipais são responsáveis por monitorar, acompanhar e avaliar os resultados do Pronasci nos cerca de 100 municípios participantes. "Em escala municipal, também há uma ligação muito forte entre os Gabinetes e os Conselhos de Segurança Pública, que tem participação ativa da sociedade. Os conselhos definem o que deve ser feito, enquanto os gabinetes definem como vai ser feito", explica Wilkerson.

Ganhos e mudanças

Sandes acredita que o grande ganho dos gabinetes foi a criação de um consenso entre as instituições e a articulação de forças-tarefa em prol de objetivos conjuntos, ao invés da insistência em ações paralelas descoordenadas. "Outra experiência positiva é o fato de trabalharmos temas específicos, como o crime organizado, o combate a homicídios, e a criminalidade entre jovens", contabiliza Wilquerson.

Para Alexandre Aragon, da Senasp, outra melhoria vinda com o advento dos GGIs é o fato de a segurança pública passar a ser tratada como ciência. "Hoje, as políticas públicas que nascem nos GGIs se tornam política de Estado, com a participação de toda a sociedade e não só de um ente emanando determinações", explica Aragon. Ele acredita que isso traz legitimidade junto aos cidadãos brasileiros e à comunidade internacional. "Atualmente não existe fórum internacional sobre segurança pública que não solicite a experiência brasileira", justifica.

Se o assédio externo pode ser associado ao sucesso dos GGI, a conquista de legitimidade interna não é mera impressão. Segundo pesquisa mais recente do CNT/Sensus, o percentual de brasileiros que acredita que a segurança pública melhorou nos últimos seis meses aumentou quase 6%: passou de 22,5% em novembro de 2009, para 28,2% em janeiro de 2010. "Pela primeira vez na série histórica dessas pesquisas a segurança pública foi vista como algo que está em mudança, e positivamente. Isso nos alegra muito porque só foi possível em função desta interação federativa sintetizada pelos gabinetes de gestão integrada e pelo próprio Pronasci", concluiu o ministro Tarso Genro.

1 Comentários
A última década trouxe avanços muito significativos no campo da segurança pública. O Brasil passa a pensar como uma república federativa. O estabelecimento do SENASP, trouxe um sentido de organização ao inexpressivo Sistema de Segurança Brasileiro. Mas confesso uma preocupação. Que garantias há de que no advento de uma mudança no poder central não retornaremos ao antigo modelo. Estão consolidadas as bases para a continuidade desse processo?
Abraços
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