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Quero justiça!
Amadeu Epifanio - Rio de Janeiro(RJ) - 04/03/2010
Essa é a expressão mais utilizada por vítimas (ou parentes destas) que sofreram alguma forma de violência. Para alguns, representa a última esperança de consolo ou vingança, de ver punido e preso, o autor ou autores, do crime que cometeram. Para outros, funciona como a capa da vergonha, por tentar esconder o remorso de que poderia ter feito algo para evitar e não o fez ou, que por um ato imprudente, acabou por provocar a ação que resultou na morte da vítima.

Alguns casos de homicídio ou de morte acidental ocorreram praticamente por mera provocação. O primeiro exemplo (e o mais fresco) ocorreu esta semana no Rio de Janeiro, quando um garçom de 47 anos foi morto por discutir com um outro passageiro do mesmo ônibus, quando aquele lhe pediu para fechar a janela e o garçom se recusou, no que imediatamente o outro passageiro sacou uma arma e atirou contra ele e o matou.
Pergunto: Porque o garçom não fechou a janela ou mesmo tivesse ele argumentado para fechar apenas um pouco, por uma simples questão de educação ou mera cortesia. Não precisamos saber se alguém saiu de casa disposto a matar alguém. Apenas não precisamos tornar a vida de alguém, mais difícil do que pode estar e com isso dar-mos à ela o motivo de que ela precisa para fazer o que já saiu de casa, disposta a fazer.

Outro caso é daquela menina Tainá (São Paulo), que foi morta por um assaltante em perseguição, de carro, quando este, passando a mil por hora, esbarrou no carro (que estava parado) do pai da menina, arranhando-o, no que logo o pai, juntamente com a filha e o tio, saíram em disparada, para tentar alcançar o carro que provocou o acidente, não sabendo o pai que se tratava de assaltante em perseguição. Ao se aproximar do meliante, o mesmo, assustado, sacou a arma e começou a atirar, acertando e vitimando fatalmente, com um dos tiros, a menina, que estava no banco traseiro do carro do pai. O assaltante foi a julgamento e pena que lhe foi atribuída não satisfez o pai de Tainá, no que logo se mostrou indignado, proferindo a célebre frase acima, isto é: QUERO JUSTIÇA ? Pergunto: Porque o pai não deixou a menina com o tio ali na calçada e foi sozinho atráz do "mau motorista" tirar satisfações ? Precisava ele saber se era ou não bandido ? de forma nenhuma, apenas se pôs no lugar errado e na hora errada, por mera imprudência (por si) e negligência, por não ter pensado na própria filha, ao tomar uma decisão tão arriscada como aquela.

Portanto, antes que venha a ter de expressar esta máxima, pense bem no que vai fazer e se vale a pena o risco e o sofrimento que você (ou os seus) terão de passar depois. O risco pode estar numa discussão por troco, vaga de garagem ou mesmo numa tentativa frustrada de fazer uma ultrapassagem perigosa na estrada. E aí ? O culpado é os outros ? Quem será o próximo sobrevivente à pedir JUSTIÇA ? Sua esposa ? ou você, por mais um ato "inteligente" de imprudência ?

4 Comentários
Epifânio, como sempre você aborda seus temas com um enfoque instigante. Abs
Caro amigo... Concordo com vc que pensar primeiro e agir depois é hoje e sempre foi muito importante.
Mas tb sou a favor de baixar a maioridade penal para 16 anos e endurecer as penas para casos como o da menina e o do garçon.
O ser humano é muito complexo e muitas vezes possuidor de sentimentos perigosos como a ira, imprudência entre outros.
Parabéns pelo tema abordado.
Fraterno abraço.
Agradeço gentilmente as palavras dos amigos Marcelo e Paulo Câmara, bem como à todos que votaram.

Abraço à todos,

Amadeu Epifânio
Infelizmente o clamor por justiça tem se tornado lugar comum no noticiário policial. São notas atribuídas principalmente àquelas pessoas que sofreram agressões absurdas - ou a seus parentes, quando a vítima teve a vida estupidamente ceifada - por conta de ações criminosas absurdas. Nada mais justo.
A ideia que se tenta passar com essa invocação é de buscar celeridade nas investigações e agilidade no processo de julgamento, constrangendo e impulsionando as respectivas autoridades que atuam no caso, mediante pressão popular legítima. Tudo muito correto também.
Porém, toda essa massificação tende a apequenar o conceito de universalização da justiça criminal e deixa entrever que somente através do registro da mídia se alcançará o dinamismo da força policial e se provocará a esperada prestação jurisdicional em tempo hábil. Isto possibilita o entorpecimento de ambos os sistemas no tocante a resposta de apuração e processamento de outros delitos. Aliás, as instituições públicas deveriam funcionar eficientemente sem a necessidade do açoite da imprensa.
Quero deixar claro que, em hipótese alguma, este comentário quer desmerecer a exortação por justiça, calar a vítima e seus parentes ou algo semelhante. Não é este o propósito. Enfatizo apenas que o efeito diversionista causado por esta prática reiterada e generalizada pode resultar na banalização do protesto.
Quanto ao estudo do comportamento da vítima antes, durante e após a execução do crime (vitimologia), em linhas gerais, pode-se afirmar que ele está ligado diretamente a educação formal e doméstica, a moral vigente, aos bons costumes e, em última análise, ao nível de serviço prestado pelos órgãos estatais encarregados da lei e da ordem. Não é muito lembrar que vivemos num país onde as pessoas dão mais valor, são mais apegadas a automóveis e times de futebol que aos seus familiares e à lei. Uma nação, cujo cidadão só pede por justiça quando a injustiça atinge-lhe individual e irremediavelmente, aprende muito rápido o caminho desta exclamação.
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